








Thalita Rebouas


Traio
            Entre
    Amigas











ROCCO
JOVENS LEITORES





Para Ana e Laurinha, pelo apoio,
pelo carinho e por acreditarem em mim.
























- NAO ADIANTA, eu no consigo ficar, Penlope! Beijar um menino assim, logo depois do 'oi, tudo bem?'... De jeito nenhum! No consigo nem me imaginar fazendo isso!
Para eu beijar algum, preciso de muita coisa antes: olho no olho, mo na mo, dias e dias de cineminha, jantarzinho, paparico... Sem contar que eu preciso estar
com predisposio para amar aquela pessoa...
- Como assim? Beijo no tem nada a ver com amor, Luiza! Penlope e Luiza eram daquelas amigas que no desgrudavam nem para ir ao banheiro. Faziam tudo juntas, falavam-se
vinte vezes por dia, adoravam-se incondicionalmente, gostavam das mesmas msicas, dos mesmos filmes, mas discordavam em alguns assuntos. E, como j deu para perceber,
beijo era um deles.
Uma relao no pode comear com um beijo. Beijo  Lu i ntimo... - Luiza defendia seu ponto de vista.
- Ento, est bem, Madame Certinha. Da prxima vez em voc ficar sem namorado no vai reclamar no meu ouvido que odeia solido, que garotos no prestam, que eles
so lotli iN Iguais, essas coisas.
- que eu acho que eles gostam de um joguinho duro,
Sabe?
- Jogar duro no  beijar s na dcima vez que voc sai
com um cara! A vida no  uma regrinha, Luiza, no  um molde que voc cria para voc mesma se engessar nele - estrilou Penlope
Luiza estava sozinha h um ano, desde que seu ltimo namorado, o Neco, fora para Boston com os pais, profissionais de informtica. Ele achou que ficaria s quatro
meses, tempo previsto pelo contrato inicial. Mas todos acabaram se dando bem na terra do Tio Sam e os planos mudaram. Neco j estava at mesmo matriculado em uma
universidade.
Desde que ele fora embora, Luiza no se envolveu com ningum. Um beijo na boca aqui, seis meses depois outro ali, nada de mais. De repente, comeou a ter algo mais
srio com Vicente, um jovem (e lindo, mil vezes lindo) diretor de teatro amador. No chegava a ser um namoro. Eles no se ligavam todos os dias, no se encontravam
todos os dias, mas sempre que se viam ficavam juntos, de abraos e beijinhos e carinhos sem ter fim.
Voc est h quase cinco meses com o maravilhoso do Vicente e tem a cara-de-pau de me dizer que ainda no rolou nada? Voc tem noo de quantas meninas adorariam
estar no seu lugar?
Todas aquelas aluninhas dele - admitiu Luiza.
Ento, Lu! Quer que algum tire o cara de voc, ?
Claro que no, Penlope!
Vicente tinha 24 anos, seis a mais que Luiza, e, alm de dar aulas de teatro e dirigir montagens com atores novatos, atuava em espetculos de pouca visibilidade
e escrevia sobre teatro alternativo para um jornalzinho da Gvea, bairro onde crescera e morava. Ah, sim, ele era louco por teatro experimental, pi-ra-va com atuaes
e direo no convencionais e com aqueles textos que no dizem l com cr (o que fez Luiza dar para o primeiro mendigo que encontrou sua camiseta preta que berrava
em branco "EU TENHO MEDO DE TEATRO EXPERIMENTAL"). Dizia ler Brecht e Nietzsche nas horas vagas, jogava capoeira e fazia um sucesso absurdo com as meninas. Mesmo
quando estava de culos, cujas lentes grossas carregavam 11 graus de miopia.
Seus cursos chamavam mais ateno por seu abdmen definido que por seu currculo. Inscries anunciadas, sinnimo de filas na porta da Casa do Ator, onde ele dava
aulas. Suas turmas tinham seis meninas para cada garoto.
E se ele me der um p na bunda logo depois que rolar? - quis saber Luiza, a insegurana em forma de gente.
- Se ele te der um p na bunda  um idiota completo, porque voc  linda demais, poderosa demais, especial demais e fofa demais, e no se acha uma Luiza na esquina
a toda hora. Quem vai sair perdendo  ele!
E bem verdade que Luiza no era to linda e poderosa assim. Mas Penlope queria v-la sem aquela ruguinha entre as sobrancelhas, precisava arrancar-lhe um sorriso.
        Por que para voc  to simples? Por que eu penso sempre que todo homem que se aproxima de mim s quer saber de sexo?
Tudo era problema para Luiza, desde ir ao Maracan at fritar um ovo. E acabara de entrar para a faculdade de Psicologia! Parece brincadeira, mas seu sonho era resolver
os problemas dos outros.
Assim que passou para a faculdade, comeou a ter acessos de vergonha ao se imaginar analisando algum no div. Por isso foi lazer teatro, para perder a timidez.
Afinal, uma analista no podia ter vergonha de nada. Dentro de quatro anos ela saberia os segredos mais escabrosos de um bando de gente e no poderia ruborizar ao
ouvi-los
Os pais no davam muita fora para o curso de teatro.
        Achavam um meio de promscuos, depravados, bomios, m
influncia. No queriam ver a filha educada em colgio de freiras indo para o que chamavam de "mau caminho". Ento conheceram Penlope. Piorou a situao.
- Como  que essa menina de 19 anos mora sozinha? Onde j se viu morar sozinha com 19 anos?
- Foram as circunstncias, j te expliquei. A Penlope no se adaptou no Recife, seno estaria morando com a me at hoje. Com o pai no d para ficar porque ele
mora a duas horas e meia do Rio, longe  bea da faculdade dela. Por isso a P mora sozinha; a me vai bancar seu apartamento enquanto ela estiver na faculdade.
- Eu acho essa menina muito saidinha, muito nariz-em-p, muito arrogante, metidinha. Muito independente para o meu gosto.
- Ela no  nada disso!  uma grande amiga e eu no admito que voc fale assim dela!
- No admite! Que audcia! Bom, minha filha, h um sbio ditado que diz "Diga-me com quem andas que te direi quem s". Quando comearem a te chamar de menina fcil,
no vai dizer que no te avisei.
Fcil  timo! Ela no conhecia mesmo a filha. As discusses eram freqentes, mas at que Luiza as contornava bem. Certa vez disse aos pais, cheia de convico,
que no sairia do teatro por nada. Acreditava que o curso a tornaria uma profissional infinitamente melhor do que seus colegas de faculdade.
Com o tempo, a chatice paterna foi diminuindo. Parou por completo depois da primeira montagem. Ficaram orgulhosssimos de ver Luiza no palco, chamaram toda a famlia,
tiraram fotos, foram em todos os dias de apresentao, parabenizaram o diretor, choraram, uma loucura.


As duas estavam no quarto de paredes lils de Penlope, com milhes de roupas jogadas sobre a cama e produtos de maquiagem espalhados por todo canto. Vez em quando
se espremiam no minsculo banheiro para dividir o espelho cuja moldura ultra colorida trazia os dizeres Espelho, espelho meu, existe algum mais linda, maravilhosa,
gostosa, sensacional, apotetica e absoluta do que eu?. Garotas no vivem sem espelho, ainda mais quando tm um programa no qual vo ver e ser vistas. Elas estavam
se arrumando para uma festa na casa da Pauleta, do teatro.
- Tem que ser hoje, Luiza! Vai linda que de hoje no passa! - brincou Penlope.
- Acho que no, acho que no. No sei se estou preparada.
- Preparada? Vem c, voc no se sente a pessoa mais feliz do mundo quando est com ele?
- Arr.
- Ento, Lu! Preparada para qu? Vocs se gostam,  isso que importa!
-No sei... Ser que ele gosta de mim? Ai, como voc  chatinha!
-Eu sou, mesmo. Mas toda menina . Outro dia recebi por e-mail uma frase tima: "Homem  bobo, mulher  chata." No  exatamente isso?
As duas riram da sbia frase. Penlope mudou de assunto.
-Luiza, conta para mim... O Vicente usa ou no usa cueca?
-Sei l!
-Deixa de ser cnica! - gritou Penlope, enquanto atirava uma almofada em forma de corao em Luiza, que se fez desentendida

Essa  a dvida de dez entre dez alunas que
estudam na Casa do Ator e voc  a nica que pode esclarece-
-la. Como ?  quase todo dia de cueca e algumas vezes sem? Ou sempre sem cueca?
A conversa ia bem. Aos comentrios maliciosos da amiga, Luiza nem respondia. Apenas balanava a cabea sorrindo.

O quarto de Penlope era a sua cara. Um mural enorme com fotos de amigos e parentes ocupava toda a parede em frente  cama, uma luminria roxa repousava sobre a
mesi-nha-de-cabeceira e uma cama japonesa, dois psteres de Marilyn Monroe, sua musa preferida, e cinco espelhos com moldura colorida completavam a decorao.
- D para me emprestar aquela gargantilha turquesa? -pediu Luiza.
- D para voc comprar aquela gargantilha turquesa em vez de sempre me pedir emprestada? Sou uma estudante que vive de vender bijuterias, mas se minha melhor amiga
no d fora para o meu negcio quem vai dar? Quem? Quem? -brincou Penlope.
Desde que voltara para o Rio, Penlope ganhava a vida com a penso do pai e com a venda de suas bijuterias. Sempre fora criativa, mas seu talento para confeco
de adereos s viera  tona em Recife, quando sua me lhe pediu para ajud-la a diversificar os produtos de sua loja de roupas.
Criou gargantilhas, pulseiras e brincos e passou a vend-los para cada vez mais meninas vidas por novidades e acessrios exclusivos, inventivos. Comprava a maioria
do material (contas, fios de nilon, pedras, tudo muito colorido) na Saara, maior comrcio popular do Rio. Com as peas na mo, rodava faculdades, praias e barzinhos
e no raro comercializava seus produtos em feiras de moda alternativa.
A faculdade era seu pai quem pagava. Nem ela sabia ao certo porque escolhera jornalismo. Na verdade, acreditava que era seguro ter um diploma na mo caso no desse
certo como atriz, algo em que nem gostava de pensar.
Conheceu Luiza no curso de teatro e logo no primeiro dia, em um exerccio de improvisao, as duas se deram superbem. Por morar perto dela, passou a ir de carona
para as aulas na Casa do Ator, que ocupava um casaro de trs andares numa rua simptica e tranqila do Horto. Nesse meio-tempo, conversavam sobre faculdade, cremes,
bolsas, dietas, manicures, garotos, pontas de estoque... Assim, em pouqussimo tempo, ficaram amigas. Das mais ntimas.
Iam juntas  praia, ao cinema, ao teatro, a barzinhos, tinham o mesmo grupo de amigos, gostavam dos mesmos shows e dos mesmos lugares. E tambm dos mesmos caras.
Penlope nunca escondera que achava Vicente o supra-sumo da beleza. Ela e toda a torcida do Flamengo. Mesmo os homens.
- Sabe o que o Emlio me disse? Que morre de inveja de voc Luiza, e que acha o Vicente o bofe mais lindo do mundo depois do David Beckham, do Alain Delon e do Bono 
Vox.
- O Emlio  hilrio! Lembra quando ele comeou a perguntar muito sobre o lvaro?
- Claro aquele amigo do Vicente metido a intelectual. Esse mesmo. Um belo dia, no meio da aula de teatro, ele me perguntou se o cara dormia na caixa.
-E o que voc disse? - perguntou Penlope, rindo. 
-Que eu no tinha idia do que era dormir na caixa! A ele caiu na gargalhada e explicou com a maior naturalidade "quem dorme na caixa  boneca, amada!".
As duas rolaram de rir. E, a quem interessar possa, lvaro no era gay. Era heterossexual convicto; s no era do tipo namorador, por isso estava sempre sozinho 
em festas e eventos.
Emlio era um shiatsu-terapeuta de 23 anos, grande amigo de Penlope desde que ela batera  porta de seu consultrio para cuidar de uma dor lombar. Fazia teatro 
h seis meses, levado pela cliente, claro. Na Casa do Ator, foi apresentado a Luiza e passou a sair sempre com as duas. Penlope brincava, dizendo que ele era "mais 
uma concorrente nesse mercado dificlimo", mas o considerava seu consultor para assuntos amorosos.



- Porque o mundo  injusto  bea! Homens no tm celulite, homens ficam charmosos de cabelo grisalho, homens no gastam uma grana com creminhos e bobagens estticas, 
homens no sofrem com depilao, homens tm barriga e no esto nem a para isso, homens no ligam no dia seguinte... Mas, um dia, isso vai mudar! - esbravejou Penlope.
O comentrio era batido, mas as duas morreram de rir com o discurso inflamado.
-        Penlope, querida, voc vai mesmo com esta saia rosa choque e essa bolsa de oncinha? No  demais no? - perguntou Luiza ao constatar a forma nada convencional 
como a amiga se vestia. Para arrematar o visual, a aspirante a atriz ps uma blusa preta de gola alta, com plumas.
-Isso  estilo, fofoleta. Es-ti-lo. Olha o interfone, deve ser o        Emlio.
Atende l e fala que a gente j desce.
Claro que as duas ficaram mais meia hora trocando de roupa, mudando a cor da sombra, lixando a unha que quase arrebentara uma meia-cala, dando aquele ltimo retoque 
no cabelo, coisas de garotas. Apesar de entender a alma feminina, Emlio no achou a menor graa naquilo.
-Vou sozinho, monas! No estou no mood para aturar atraso, no! Odeio esperar! Depois no entendem por que os bofes largam vocs! Custava ter me dito para subir? 
Eu esperava aqui, no ar-condicionado, ouvindo Barbra Streisand, lendo e comentando a Caras...
As duas ignoraram o piti de Emlio, que vestia cala jeans e uma camiseta justinha, com o Mickey Mouse estampado, que deixava parte do seu drago tatuado no brao 
 mostra. Exibia ainda um novo piercing, na sobrancelha. Era o quarto. Tinha um em cada orelha e um bem pequerrucho no nariz.
As lestas na casa da Pauleta eram das mais animadas. Seu namorado, o Chico, era DJ, e sempre fazia o som dos eventos. Vicente tinha ido gravar um comercial e preferiu 
marcar com
Luiza na festa, para no atras-la, j que ele no sabia a que horas a gravao iria acabar.
Coube no carro da estudante de Psicologia quase toda a turma do teatro. Alm de Penlope e Emlio, os dois no banco da frente espremiam-se atrs Rebecca , Quitos, 
Robertinha, Jorge e Danica. Para quase matar Luiza de vergonha no longo trajeto at Santa Teresa, todos foram cantando msicas bregas, de janelas abertas, aos berros, 
numa felicidade infinita.
A festa estava cheia, a rua tambm, e Luiza, para variar,
no conseguiu estacionar (era pssima de vagas em ladeiras) e pediu para Emlio fazer isso por ela. Assim que chegaram, foram para a varanda, que j estava entupida. 
 que a vista era sensacional, simplesmente o Rio ali, sorrindo para quem fosse dar uma espiada nele. O carto-postal mais bonito do mundo (aquele que rene o Cristo,
o Po de Acar, a Baa de Guanabara, a Lagoa... tudo, tudo, tudo), ao vivo e em cores, emoldurado pela janela. No fosse o som inspirado e convidativo do Chico,
eles no arredariam o p da varanda to cedo.
Logo foram seduzidos para a pista. Chico caprichou atrs das pickups. Misturou Beatles com Martinho da Vila e Macy Gray com Cartola com uma categoria impressionante; 
no deixou ningum parado. Tocou muita msica brasileira, Simonal, Benjor, Erasmo, Roberto, Elis, Elza Soares, D2, Cssia Eller, Nando Reis, Lenine, Baro Vermelho, 
Pedro Lus e A Parede... Um som nada bvio, nada clich, incapaz de deixar parado qualquer sujeito bom da cabea e do p.
- Olha quem est chegando - Penlope cutucou Luiza apontando para a porta.
- Meton, Renato, Cal e Claudia. A turma do violo! - disse Luiza.
-E com violo! - gritaram as duas, caindo na gargalhada. Era sempre assim. Quando a turma do violo chegava, o
povo ficava tenso. Uns torciam para que a festa virasse um grande sarau, outros tinham pnico s de pensar que o balao danante corria o risco de se tornar uma 
enxurrada de Andanas, Rondas, Espanholas e Los e Bias. A sorte  que a casa da Pauleta era grande, eles tinham todo o andar de cima para se arrumar e dar incio 
 violada. Alis, no demorou muito para isso acontecer. As festas da Pauleta eram maravilhosas, tinham lugar para todo mundo.
Penlope e Luiza continuaram na pista. Quer dizer, na sala que fazia as vezes de pista de dana. De repente, uma garota berrou que queria msica baiana. O Chico 
se recusava veementemente. Um batalho liderado pela Juca - amiga rebolativa que sabia de cor o nome de todos os integrantes de todas as bandas da Bahia - comeou 
a pedir a bunda-msica, mas o DJ no sucumbiu  presso. Como sentiu que as meninas queriam rebolar, ele atacou de Kiss, do Prince, seguido de Melo do Piripipi e 
Conga, la Conga, da Gretchen. Aquele trio sempre agradava.
Chico apenas ria vendo as desinibidas rebolando at embaixo e fazendo caras e bocas. Penlope tambm se divertia, mas Luiza achava vulgar, desnecessrio, puro exibicionismo.
- Olha l, Chico e Pauleta se beijando... Os dois formam o casal mais lindo que eu j vi... - comentou Luiza.
- Ih... J entendi. Est batendo saudade do seu gatinho, n?
Luiza deixou a cabea cair para um lado e riu, boba, admitindo que no via a hora de dar muitos beijos em Vicente. As duas foram interrompidas por Ritinha, a baiana 
espevitada e engraadssima que quando descrevia seu cotidiano matava de rir com a interpretao.
- Fiquei com o Rato na festa de Llia - disse ela, com um S( uaque baiano arretado de forte, como se tivesse acabado de i negar de Salvador.
- Menina, conta, e a? Beija bem?
- E a nica coisa que ele sabe fazer. E no  dos melhores no, hein?
Ela estava dizendo que o Rato, surfistinha sarado da turma
do teatro para quem todas davam mole, alm de no
ser a apoteose que imaginavam, no beijava bem. No beijava bem!
uma revelao importante. Importantssima.
- S sabia olhar pro cu e dizer: "Cara, maior sudoeste vai dar amanh."
Dava trs segundos e ele, incansvel, mandava:
"Que sudoeste irado vai dar amanh." Ele praticamente ignorou a minha presena! A  o cmulo da falta de noo, n no?
-Ritinha, vamos para a varanda. Preciso saber detalhi-nhos to pequenos de ns duas sobre essa histria - disse Penlope assim que avistou Vicente entrando na festa. 
Deu uma piscadela para Luiza e saiu.
Os olhos de Luiza brilharam quando cruzaram com os de Vicente. Nem ela acreditava naquilo, mas era a mais pura verdade. Seria um primeiro passo para uma paixonite?
Primeiro passo... arr. O mundo inteiro achava que a paixonite de Luiza tinha comeado h tempos, menos ela.
Abriu um longo sorriso e foi correndo abra-lo.
-At que enfim! Demorou pra caramba esse comercial, hein? Achei at que voc no viria!
-E perder uma festa dessas? Claro que no!
Os dois se beijaram. Luiza bem que tentou prolongar o beijo, mas Vicente estava pensando em outra coisa.
- Preciso relaxar, Lulu. Deixa eu acender um cigarro, tomar uma cervejinha, depois a gente se cruza.
- Vai fumar, Vicente? Voc no disse que estava parando? Fumar  to cado, no combina com voc.
- Quase no estou fumando, bonita, s um ou dois por dia, no mximo! - justificou-se, j tirando do bolso um mao e acendendo um cigarro. Luiza queria ter insistido, 
mas no podia. Ele no era seu namorado! No queria encher o saco do cara, mas ficou irritadrrima. Procurou Penlope e a viu conversando com o Gustavo, ou Gugs, 
um loirinho-todo-gatinho, gente boa at dizer chega. Estava rolando um clima, no ia atrapalh-los.
Ficou sozinha um tempo, pensando o quanto achara Vicente estranho. Coisas que s garotas passam um temp.n | pensando. "Por que ser que ele est frio comigo? Ser
que eu disse alguma coisa errada?"
Problema era com ela mesma. Tempestade em copo d'gua, ento, nem se fala! No adiantava, pensava sempre o pior.
Vicente voltou em alguns minutos. Comeou a abra-la.
-Sai, Vicente. Voc est com um cheiro insuportvel de cigarro! Odeio esse cheiro e odeio beijar cinzeiro!
- Qual , bonita?
- No gosto, cara, j disse.
0 clima ficou esquisito. Vicente desvencilhou-se de Luiza, virou o rosto e, com a mo na nuca, ficou olhando para o lado, fulo de raiva. Luiza se tocou.
-Vem c, desculpe. - Ela tratou de abra-lo de novo. -  que eu queria estar com voc, te abraando e te dando muitos beijos, mas a voc chega e me deixa sculos 
sozinha! Vamos embora dessa festa!
Ela estava sendo uma sem-noo (ou "sem loo!" como exclamaria Emlio) e sabia disso. Ningum gosta desse tipo de cobrana, ainda mais sem estar oficialmente namorando.
- Ai, Luiza, espera a, ento! Vou ver se algum tem uma bala para tirar o gosto do cigarro, t?
- T, t! - disse toda feliz. "Ele d importncia ao que digo", imaginou.
Imaginou errado. O cara demorou sculos para voltar. Encontrou uns amigos, comeou a armar uma pelada parao dia seguinte, a comentar o jogo da noite anterior, um 
papo futebolstico realmente sensacional.
Luiza viu. Ficou injuriada. Vicente no estava com a menor pinta de que ia parar a conversa no meio para ficar com ela. No se deu por vencida. Se Maom no vai 
 montanha, a in-su-por-t-vel da montanha vai a Maom.
- Vicente! Cad a bala? - cutucou-o, puxando-o para um canto.
- Luiza, eu no vejo esses caras h muito tempo!
- Eu tambm no te vejo h muito tempo!
Chata, chata, chata. Como se no bastasse, Luiza arrematou:
- Vamos embora, eu te fao uma massagem, garanto que voc vai relaxar mais do que nesta conversa ridcula sobre futebol.
- Pirou? Acabei de chegar! Se est a fim de ir para casa, vai. Amanh a gente se fala - disse ele, seco.
Luiza ficou chocada, sem ao. No esperava uma resposta dessas. J comeava a achar que ele nunca mais a procuraria, que iria trocar de calada quando a visse, 
aqueles pensamentos de Luiza.
-        Est certo. Amanh a gente se fala, ento - concordou, tentando disfarar a irritao e as manchas vermelhas que lhe nasceram no colo e no pescoo, coisa, 
alis, que sempre acontecia quando ficava nervosa.
Foi correndo falar com Penlope, que danava empolga-drrima com Emlio, quase num transe, "Madalena (entra em beco, sai em beco)", do repertrio de Gil, ela e a 
festa inteira cantando aos urros o refro.
- Voc tem como voltar para casa? - quis saber Luiza.
- Claro que sim, carona  o que no vai faltar por aqui, por qu?
- Porque o Vicente prefere conversar com um bando de idiotas a ter uma massagem relaxante feita por mim - choramingou.
- Ele falou isso?! - reagiu Penlope, indignada, fazendo fora para escutar a amiga, por causa do som alto.
- Falou. Estou com vontade de voar no pescoo dele, mas vou manter a calma. Vou embora em cima do salto.
-        Isso mesmo, Luiza! No se preocupa com o resto do povo, no. Todo mundo sabe voltar para casa sozinho. De repente a gente racha um txi.
-Jura? - perguntou Luiza.
-Juro! Vai embora, toma um banho frio e esquece. Amanh a gente se fala quando acordar. Se tiver tempo bom, a primeira que acordar liga para a outra? Vamos pegar 
uma praia, Lu, que  o melhor remdio depois de uma noite dessas.
A dana rolou por muito mais tempo. Penlope e Emlio no se desgrudaram a noite toda. Quando ela foi pegar uma gua, esbarrou com Vicente.
- Oi, bonita! O que voc quer? Fala que eu arranjo.
- Uma gua.
- Sai uma gua estupidamente gelada para a Penlope Charmosa!
Ele mesmo pegou um copinho de gua no fundo do isopor e abriu. Ela agradeceu. Os dois trocaram sorrisos. Vicente abriu seu melhor sorriso para Penlope, com todos 
os dentes e covinhas  mostra, supersimptico; ela lhe deu apenas um riso cordial, sem sequer abrir a boca.
Assim que Penlope voltou para a pista, comeou a tocar msica lenta. Nas festas da Pauleta sempre rolavam aquelas musiquinhas-fim-de-festa para unir solteiros. 
Era o nico lugar do Rio onde ainda se tocava msica assim. Todos amavam. Emlio a tirou para danar.
- Por que voc  gay, Emlio?! Podia ser meu namorado!
- Ffi, os gays so os homens mais lindos, inteligentes, charmosos, sexies e divertidos que existem na face da Terra. Tm bom gosto, estilo, so bem-humorados... 
Enfim, eu me enquadro perfeitamente neste perfil. Respondi sua pergunta?
Enquanto danavam, Penlope percebeu que Vicente a olhava insistentemente. Aquilo a incomodava. "Quem ele pensa que ? O rei da cocada preta? Eu sou a melhor amiga 
da Luiza, seu cretino", pensou.
Irritao  parte, danou quatro msicas de rosto colado com Emlio. Depois cansou. Hora de ir para casa, a noite estava chegando ao fim, uns babando no sof, outros 
derrubados, j na fase do cafezinho para dar aquela reanimada.
Quando foi pegar sua bolsa no quarto da Pauleta, foi surpreendida por Vicente, que a pegou pelo brao e sussurrou em seu ouvido pedindo que danasse com ele.
-Acho melhor no, Vicente. Estou cansada, louca para me jogar na cama e dormir.
-Como  que voc vai voltar se sua amiga j foi embora?
-Vou arrumar uma carona ou dividir um txi com o Emlio.
- Deixa o Emlio para l... Vai comigo!
- Claro que no. Est maluco? Combinei de voltar com
ele!
-Ento eu levo os dois, estou de carro. Mas s depois de danar com voc.
Era fato consumado: Vicente estava dando em cima de Penlope. Algum duvida?
Insistiu tanto que ela acabou cedendo. Durante a msica, Vicente acariciou suas costas, fez cafun, encostou sua bochecha na bochecha dela... Ela bem que tentou 
se esquivar, no se sentia nada confortvel danando com o cara que acabara de ser grosseiro com sua melhor amiga. Mas, por outro lado, sabia que eram apenas dois 
amigos aproveitando uma boa msica e no havia mal nenhum nisso.
S que os elogios de Vicente comearam a mudar os pensamentos de Penlope. E ela acabou com a dana. Era "que saia bonita" para l, "que cabelo cheiroso" para c, 
"que mos macias voc tem"... Essa histria de pele macia, alis, fala srio! Todo cara vem com o mesmo papo logo na primeira oportunidade!
Saram da festa. Depois de deixar Emlio em Botafogo, Vicente rumou para Ipanema e em pouco tempo estavam na Baro da Torre, em frente ao prdio de Penlope.
- E ento, no vai me convidar para subir, Charmosa? -arriscou Vicente. - Tenho uma coisa para te falar.
- Pode falar aqui mesmo. No  demorado, ? Estou com sono.
- At que no, mas  uma coisa to bacana que acho que a sua felicidade no vai caber nesse meu carrinho.
Verdade incontestvel: a frase a deixou derretida. Nem ela sabia por que gostara de ouvir aquilo, no demorou para se pegar sorrindo com dentes demais para uma piada 
to pequetita. Claro que depois de uma dessas ela o convidou para subir.
Na escada (o pequeno prdio de trs andares no tinha elevador), ansiosa, tentou arrancar de Vicente o que ele tanto queria lhe dizer, mas ele se mantinha irredutvel. 
Penlope comeava a desconfiar de que ele a chamaria para um papel em sua prxima pea. Andava olhando muito suas aulas nos ltimos tempos. E pensar que ela almejara 
isso por tanto tempo! Ser que Luiza sabia de alguma coisa?
Logo chegaram ao apartamento 302, de fundos. Vicente, cavalheiro, elogiou o ap, " muito lindo, pequeno, aconchegante", adorou o cho de tacos e riu com os mais 
de 20 espelhos espalhados pelas paredes da pequena sala. (Penlope, narcisista assumida, tinha uma coleo de mais de 50 espelhos. De vrios tipos, tamanhos, molduras, 
origens e formas.) Ele escolheu para sentar-se numa poltrona inflvel azul-marinho que era a cara da dona da casa.
- E ento? Estou curiosa. O que voc quer me falar?
- Vai ser assim, na lata? -Vai.

- Ento, t - concordou, respirou fundo, para fazer um pequeno suspense, e soltou: - Preciso de uma atriz para a pea que eu vou comear a ensaiar, e no  amadora 
no, Penlope.  profissional!
- Como  que ?! - perguntou, sorriso no rosto, ainda meio sem acreditar.
-  isso mesmo que voc ouviu, Charmosa. Os produtores j esto fechando com um divulgador, o espetculo vai sair em todas as mdias! E a Laura Cardoso vai fazer 
uma participao especial!
- A Laura Cardoso?! Caraa... Ela  uma das melhores atrizes do mundo, na minha opinio - disse Penlope, espantada com tanta novidade boa.
- Eu tambm sou o maior f dela. Agora imagina a Laura Cardoso se juntando a um grupo jovem como o nosso e emprestando aquele talento todo para a nossa pea. Vai 
ser muito bacana!
- Nossa... - suspirou.
Mas faltava o convite oficial.
-E a? Aceita?
Pronto! Convite oficial feito e sacramentado!
Penlope deu um gritinho agudo e se jogou nos braos de Vicente para abra-lo muito, muito mesmo. No precisava falar nada. Sua felicidade saltava pelos poros. 
Um abrao apertado foi sua forma de dizer "Sim! Claro que sim! Obri-gadaobrigadaobrigadaobrigada!".
Enquanto abraava Vicente, passaram mil coisas por sua cabea. Primeiro, a grana que receberia. Pouca, provavelmente (j viu algum ator iniciante ganhar muito com 
teatro?). Mas quem se importava? Era sua. Conseguida com seu trabalho de atriz. Era seu sonho comeando a se realizar. Sem contar que com a pea ela poderia pedir 
menos dinheiro para o pai.
"Um papel num espetculo com essa visibilidade vai ser tudo de bom para eu comear a me tornar uma atriz de verdade", era a frase que passeava pela mente de Penlope 
quando Vicente fez mais uma proposta.
-        Acho que isso merece uma comemorao, no?
-        Claro! O que voc toma? S tenho vinho, mas nem sei se  bom. E tem gua e... caf instantneo tambm - brincou.
-Vinho, bom ou ruim. Vamos deixar que Baco sade sua estria profissional.
Ela estava encantada. No via a hora de contar  me,  Luiza, ao pai, ao Emlio. Abriu a garrafa e comearam a beber. Uma taa, perfil dos personagens, duas taas, 
detalhes da trilha sonora do espetculo, trs taas, a pea era a nica coisa que interessava a Penlope naquele momento. Sua mente ia longe. J se imaginava sendo 
aplaudida de p, rodando o pas com a montagem, sendo convidada para testes e mais testes...
-        E as minhas cenas? Eu tenho muitas cenas?
-        Muitas. E todas rodriguianas. Fortes, tensas, cheias de conflitos...
-        E a minha personagem, como ?
-  o mximo, Charmosa!  uma mocinha angustiada, sofrida, amarga, mas ao mesmo tempo tem um carter para l de duvidoso,  dada a pequenos furtos... Prato cheio 
para qualquer atriz!
- Ai, meu Deus! Ser que vou conseguir compor uma personagem com essa carga dramtica? Estou mais acostumada a fazer comdia.

- Claro que vai, linda! Eu vou estar l para te ajudar.
- Por que eu e no uma de suas alunas?
/icente deu um gole grande de vinho, olhou firme para ; respondeu:
-        Porque voc  mais talentosa do que todas elas juntas. Depois levantou da poltrona inflvel e foi at o som.
recta procurar algum CD em especial. Ps para tocar um com umas msicas francesas da dcada de 60, que Penlope ganhara h tempos da me, f de Charles Aznavour 
e Barbra.
-        Quer conhecer melhor sua personagem? - perguntou, ele, com uma carinha irresistvel. - Vem. Vamos cri-la juntos.
Penlope morria de rir. Era pura felicidade. Vicente tambm.
O vinho comeava a fazer efeito.
- Olha l o que voc vai fazer comigo, hein, Vicente! SOL uma mocinha. Sem escrpulos, mas uma mocinha.
- Uma mocinha nada ingnua, que seduz todo homer que se aproxima dela para conseguir o que quer.
- Essa sou eu ou a personagem?
- A personagem, Charmosa. Deixa ela te envolver, pea ns vamos viver uma paixo proibida.
Na mesma hora Penlope virou esttua nos brao? Vicente.
- Como  que ? Achei que voc s fosse dirigir...
- No, quem vai dirigir  o Roberto Bomtempo! Dess eu vou s atuar e, de vez em quando, fazer assistncia de o para ele.
Uau! Viver uma paixo proibida com Vicente assirr estria? Mesmo que no palco, ela no esperava pc Sentiu um calafrio inesperado.
- E a gente vai... ter que... se beijar?
- Claro, n, Charmosa! Alis, os beijos devem ser realistas possveis. - Ele deu uma pausa, pegou c parte da nuca da atriz com a mo direita e procurou o preto dos 
olhos dela. - Me beija.
Penlope logo tentou se esquivar.
- Que te beijar o qu, Vicente! Endoidou?
- Me beija!
- No! E a Luiza?
- O que  que tem, Charmosa? No estou querendo te beijar no, t? No se preocupe. Estou falando de beijo tcnico. Isso  trabalho, bonita. Trabalho.
Penlope ruborizou. Ficou genuinamente sem graa por entender tudo errado. "Droga!", resmungou mentalmente. Tentou voltar ao assunto Luiza, para tirar o foco do 
vermelho de suas bochechas.
- Mas a Luiza...
- O que tem ela? Semana passada a Luiza fez duas cenas com beijo. E com o Thiaguinho, aquele moleque boa-pinta e pegador da Casa do Ator.
Beijar ou no beijar? Que questo cruel!
Cruel nada! Cruel s at a pgina dois! Com o vinho deixando-a mais complacente do que o normal, a questo lhe pareceu simples num segundo momento. " trabalho, 
afinal de contas!  minha grande chance", pensou Penlope. E decidiu dar logo o tal beijo tcnico em Vicente, at para acabar de uma vez por todas com aquele climinha 
estranho. "Um beijo s, beijo profissional, no tem mesmo nada de mais..."
Aos poucos foi deixando sua boca ir ao encontro da dele. Mas o diretor do abdmen duro estacou.
-        No d, no d. Beijo nesta pea no pode ser assim, bonita. Tem que ser de verdade, com vontade... Os personagens so calientes - Vicente a repreendeu, 
trazendo-a com um puxo para ainda mais perto.
- Mas voc acabou de dizer que era beijo tc...
Penlope no conseguiu terminar a frase. Vicente lhe roubara um beijo arrebatador, quente, sedento. Nada tcnico. Ela ainda tentou resistir, mas, entorpecida de 
felicidade e de vinho, acabou cedendo. A cabea rodava, o mundo rodava. Um beijo... mais um... mais dois... Cada vez mais demorados. Cada um melhor que o outro.
Essa mistura surreal de fico e realidade, de ensaio e seduo, acabou por levar msica, vinho, risos, beijos, abraos e personagens da sala para o quarto.
S DEZ DA MANH o despertador de Taz tocou na cabeceira de Luiza. O dia estava lindo, a praia de Ipanema desavergonhadamente sedutora. Queria pular da cama, pegar 
a canga e o iPod, atravessar a rua e ir para a praia, mas ela odiava ir  praia sozinha, simplesmente no conseguia. Alis, ela estava sozinha. No na praia, mas 
em seu enorme apartamento de frente para o mar. Seus pais haviam ido a um churrasco em Itaipava, do Nlio, amigo da famlia.
Mas ficar sozinha em casa era outra coisa - disso ela gostava. Uma manh sem a ladainha da me perguntando como foi a festa, como estava Vicente, quem foi (sua me 
tinha a chatssima mania de perguntar quem estava nas festas mesmo sabendo que no conhecia um tero dos nomes citados)... Era um sonho.
Aproveitou o silncio da solido para pensar sobre como estivera intolerante com Vicente. Intolerante, uma ova! Uma chatona, mesmo! Tudo estava to confuso em sua 
cabea...
Foi para perto da janela olhar o calado, as pessoas comeando a chegar  praia, as mes empurrando seus bebs nos carrinhos. Por um momento se imaginou caminhando 
grvida na orla com Vicente.
Na mesma hora sacudiu a cabea, piscou os olhos e lembrou que no sabia sequer se eles ainda estavam juntos (se  que algum dia eles estiveram juntos) ou se o estresse 
da noite anterior tinha sido capaz de murchar o relacionamento que apenas comeava a engrenar.
O cu estava azul, o mar tranqilo. Luiza abriu a janela para sentir o cheiro da maresia. Ela sempre gostou de cheiro de mar. Com a brisa batendo no rosto, olhava 
para a praia e pensava em encontrar Vicente para desfazer o mal-entendido, pedir desculpas. Chegou a imaginar a cena, e ficou impressionada com o quanto pensara 
nele desde que acordara. "Porcaria! Mil vezes porcaria! Estou mesmo apaixonada por um cara lindo, sarado, talentoso e desejado por toda a torcida feminina do Flamengo", 
filosofou.
Resolveu botar a memria para funcionar e ficou lembrando de seus relacionamentos anteriores para saber se algum dia estivera to abobada quanto naquele momento. 
Corao batendo a mil por hora, mos geladas e frio na barriga s de se imaginar sozinha com o dito cujo. Pensar nele a todo segundo, querer ench-lo de presentes, 
de carinho, de cafun... , nunca estivera to pateta por algum quanto estava por Vicente.
No demorou para pensar que, se no fosse Penlope, no teria sequer ficado com ele. Lembrou-se da festa do teatro, quando a amiga quase a jogou em cima do diretor 
todo bom. Lembrou-se dos conselhos, das dicas sensacionais.
- Se voc ligar para ele, eu te mato. O Vicente  muito popularzinho, muito marrento; se voc fizer igual s outras, que s faltam lamber a sola do sapato dele, 
esquece, porque daqui a pouco ele no vai nem saber que voc existe.
Ponto para Penlope! Alm da experincia, ela absorvia direitinho os toques de Emlio, o conselheiro sentimental da dupla de amigas. Luiza resistiu bravamente e 
no ligou depois do primeiro beijo, que s rolou depois do ritual Luiza: mo na mo, olho no olho, cinema, um restaurante japons... Resultado: um convite para sair 
na sexta-feira, dia nobre, segundo Emlio:
- Prestem ateno, tenho uma diquinha importantsima; decorem porque no vou repetir. Uma pessoa, quando no quer nada srio, s convida para sair nas segundas, 
teras e quartas. Quinta, sexta e sbado  que so os dias das oficiais e das candidatas com chances reais de se tornarem oficiais.
Desde a sexta-feira nobre, Luiza e Vicente passaram a se ver com mais freqncia, a ficar com mais freqncia. Mas, embora a relao parecesse a cada dia mais sria 
para Luiza, Vicente no a assumia como namorada e fazia questo de deixar claro, mesmo que nas entrelinhas: podiam at formar um casal. Mas um casal no-oficial. 
Alm disso, ainda no tinha acontecido nenhum momento importante, nem um "eu te amo", nem sequer um "gosto tanto de ficar perto de voc", nada do gnero. Ela era 
bem fechada para essas coisas e ele no parecia am-la exatamente.
Para o mundo, e para eles mesmos, os dois ainda estavam naquela fase do "estamos nos conhecendo". Mas depois da festa da noite anterior Luiza percebeu que j gostava 
de Vicente o bastante para querer estar 24 horas por dia ao lado dele.
Olhou para o relgio, uma hora j havia passado. Ligou para Penlope. Ouviu a gravao "Voc ligou certo, mas na hora errada. Deixe seu recado aps o sinal". Ao 
fundo, A minha menina, uma msica dos Mutantes. Ah, sim, Penlope no perdia a mania de querer ser engraadinha com os recados da secretria eletrnica.
Passou um tempo, Luiza ligou de novo. Mais uma vez. Outra. A amiga no atendeu a nenhum telefonema.
O sol e a vontade de esbarrar com Vicente na praia, em frente ao Posto 9, mataram o pavor de ficar sozinha na areia. Luiza saiu do lado do telefone e a jato botou 
biquni, pegou seu iPod, revistas, jogou tudo na bolsa e foi para a praia. Queria dar um mergulho no mar, tentar deixar nas ondas a insegurana, as interrogaes 
e o medo de perder Vicente.
Tentou uma ltima vez falar com Penlope.
- P, estou indo, t? Me encontra l no Nove, no mesmo lugar de sempre, em frente  barraca da Renata e do Rubens. O dia est lindo, j  quase uma da tarde e o 
sol me espera. Mas v se no demora porque seno voc vai acabar no me reconhecendo, de to estufada que vai estar a minha barriga, por causa das empadinhas da 
Renata.  bem verdade que o avental dela no deve ser lavado h uns dez anos, mas aquelas empadas so do outro mundo, n? Beijo.
Do outro lado, Penlope chorava. Esvaa-se em lgrimas, os olhos inchados, quase saltando do rosto, parecia um sapo. Enquanto ouvia a amiga, sem a menor coragem 
de atender  ligao, escutava Vicente, o verdadeiro sapo dessa histria, tomando banho.
Ela acordara cedo e foi s abrir os olhos para se sentir a pior das mulheres. No conseguia acreditar no que havia feito. "Como eu tive coragem de ficar com ele? 
Como?", perguntava-se.
Ao levantar, foi at a cozinha, bebeu um copo de leite gelado, andou pela casa, pensando, pensando. No sabia o que queria fazer primeiro: ver-se livre de Vicente 
(ela acabara de expuls-lo), ligar para o Emlio, ir correndo para a Urca chorar olhando a Baa de Guanabara, como fazia quando estava magoada, ligar para a me, 
no Recife, nadar 10 horas seguidas, tomar remdio para dormir pelos prximos doze anos. Tudo, menos ir  praia com a Luiza como se nada tivesse acontecido.
"Que amiga sou eu? Espero a pessoa mais bonita e sincera que conheci na vida virar as costas para ficar com seu namorado? Execrvel, podre." Esses eram os pensamentos 
de Penlope quando Vicente saiu do banheiro, enrolado numa toalha. Estava lindo, ela no pde deixar de notar. E sentiu mais culpa ainda por ignorar uma amizade 
slida em prol de um abdmen definido. "Sente o personagem... me beija... Como fui ingnua. Eu tinha que ter reagido, ter sacado desde o comeo o que ele queria!"
- Por que no me convida para tomar caf, Charmosa?
- Que Charmosa, Vicente? Que Charmosa? Vai se vestir, anda! J no te mandei ir embora?
- Sem nem um beijinho? - disse ele, aproximando-se dela.
O sangue de Penlope ferveu e ela ficou com um imenso nojo daquele por quem sua amiga descobria, a apenas algumas quadras dali, estar completamente apaixonada.
- Voc tem noo do que a gente fez, cara? Voc tem noo do quanto eu amo a Luiza, do quanto ela  importante para mim? - Penlope chorava como louca, precisava 
desabafar. - A vem voc achando que est tudo normal e...
- Mas est tudo normal, Charmosa! A gente s se deixou envolver pelos personagens calientes...
- Calientes... calientes uma ova! E deixa de ser cafona, Vicente! Calientes  u\ Ainda bem que voc  bonito, porque voc  pssimo de cantada, pssimo! - estourou, 
para depois dizer para si mesma: "Meu Deus do cu, como  que eu fui cair nessa?"
- Ontem voc gostou. E no estou entendendo o escndalo. Tudo isso s por causa da Luiza?  s a gente no contar, u!
- Ah, no! Cala a boca, Vicente! Vai embora, por favor, sai da minha casa! J te pedi! - elevou o tom de voz.
O que Penlope mais queria era ficar calada, sozinha. Estava fraca. De tanto chorar, de tanto se odiar, de tanto recriminar sua atitude.
- Pediu, no, ordenou!
- Ainda bem que voc notou.
-        Beleza, estou indo. Mas, olha, os ensaios comeam na quinta, l na Casa do Ator, s nove da noite. Estou te esperando, t?
Longa pausa. A raiva de Penlope subiu  garganta.
-        Voc  horrvel, cara! Horrvel! Sai daqui! - gritou, as veias quase saltando do pescoo.
Ele deu de ombros. Botou a cala e saiu sem camisa mesmo. Bateu a porta e foi embora, ainda sem entender direito a razo daquele drama.
Cretino, cnico, sedutor barato eram apenas alguns dos adjetivos que pipocavam pela cabea de Penlope no momento. quela altura do campeonato toda a beleza, a morenice, 
as covinhas, a fala mansa e o abdmen do diretor de teatro mais cobiado do Rio tinham ido por gua abaixo.
Ela no queria se olhar no espelho (o que era difcil naquela casa). Por vergonha e por no querer encarar de frente um monstro mais medonho ainda do que o homem 
que, por causa de uma noite, seria o motivo (e bom motivo) para o comeo do fim de uma amizade linda.
Penlope sabia que no tinha nada de santa nessa histria. Afinal, verdade seja escancarada, deixou-se envolver pelos personagens. Verdade mais escancarada ainda, 
quis deixar-se ser envolvida pelos personagens.
E foi bom!
Houve uma sintonia interessante entre Vicente e Penlope, os dois tinham a tal da qumica quando estavam prximos, no conseguiam se desgrudar ou parar de se beijar. 
E que beijo bom o Vicente tinha! Um beijo lento, firme, carinhoso, quente... Juntos, eles pareciam desafiar a fsica, j que conseguiam ocupar o mesmo lugar no espao, 
sem contar que davam a impresso de que entrariam em ebulio a qualquer minuto.
Mas no podia ter acontecido. Simplesmente no podia. Luiza era como irm e Penlope, apesar de sensual, no levava o menor jeito de traidora-vaca-vacona-e-insensvel.
"Nunca mais bebo vinho na minha vida!", era a frase que se repetia em looping no crebro da atriz novata. Era preciso fazer algo. Pegou o telefone e discou.
-        Emlio, vem para c agora, fiquei com o...
-        Ah, desce do palco, P! Est achando que  assim, s estalar o dedo? Voc est muito mal acostumada, mona! No saio de casa nem a bico! J preparei a banheira 
com meus sais, botei incenso na casa inteira, acendi umas velas...
- E se eu te disser que fiquei com o Vicente?
- Ai, meu Deus! Foi bom para voc?
- Emlio! - gritou Penlope.
- Brincadeirinha! Desculpe! Estou indo pra.
   
   
   
   
-VE UM MATE, moo.
Era o quarto que Luiza tomava. O calor estava insuportvel, o sol estava quase derretendo sua pele clarinha. A sorte  que alugara cadeira e barraca com a moa das 
empadas e encharcara-se de protetor solar com FPS 60. O sol no iria machuc-la tanto.
Para tentar ver Vicente assim que ele pisasse na areia, ficou longe do mar, o que piorava o calor, a ansiedade, a sede e a pacincia para ficar sozinha. J haviam 
se passado duas horas (o que, sem companhia, na praia, parece uma eternidade) e nada de Vicente.
Sua esperana era encontr-lo e dizer o discurso que ensaiara no caminho. Uma coisa era certa: comeava a ponderar melhor os conselhos de Penlope. Decidira deixar
de frescura e no fugir dos seus instintos: "No sei para que esperar tanto! Eu gosto demais dele. E ele gosta de mim tambm... eu sei..."
Os olhos inquietos no paravam de procurar por Vicente. Nenhum rosto que chegava carregando um abdmen do tipo tanque de lavar roupa era dele. Nenhum sorriso era 
o dele. "No mnimo ficou conversando com aqueles idiotas sobre futebol at as seis da manh", concluiu, para logo depois sentir um ligeiro frio na barriga. Ele anunciava 
uma ponta de insegurana e trouxe a pergunta: "Ser que foi mesmo com eles que o Vicente ficou at tarde?"
Luiza tentava fugir dos pensamentos, que pulavam e se repetiam na sua mente sem parar. Ela no conseguia imaginar
Vicente em casa num sbado de sol sem sequer dar um pulo na praia para uma partida de vlei ou futebol. Sua vontade era ligar para ele, mas seu celular estava quase 
sem bateria. Preferiu dar um tempo e tentar de novo falar com Penlope.

EMILIO E PENLOPE, definitivamente, no estavam se entendendo.
-        Como assim, sumir "por uns tempos"? Ficou maluco?
- S o bastante para voc esquecer o episdio, apagar da memria. Homens fazem isso em dois segundos; vocs precisam de algumas semanas.
- Voc est agindo como todos os homens, Emlio! -disse Penlope, absolutamente indignada com o conselho do amigo.
- No quer concordar, no concorda, mas no precisa xingar tambm, vai!
- Se eu sumir, ela vai ficar encucada, querendo saber o motivo do sumio!
- Fala que foi TPM! Vocs no botam sempre a culpa na coitadinha da tenso pr-menstrual? Ento? - ironizou Emlio, novamente tentando tirar um sorriso de Penlope.
- Vou fingir que no escutei. Ah, fala srio, cara! Voc no pode achar que  a coisa mais normal do mundo sua melhor amiga sumir por uns tempos sem avisar, sem 
deixar recado...
- Menina, ouve o que eu digo. Se voc falar, a amizade de vocs, que  linda, vai para o ralo! Evapora!
-        Voc acha? - indagou Penlope, com um n na garganta.
-        Acho no. Tenho certeza absoluta. Ela nunca vai te perdoar, P!
Penlope desabou em prantos. Era a quinta vez naquela manh que tinha um acesso de choro. Soluava. Sabia que era verdade mas no queria escutar.
- Pra! No agento ver mulher chorar. Vocs todas ficam horrorosas! - brincou Emlio. - Voc, ento, incha alm da conta!
- Emlio! - resmungou Penlope, sem achar a menor graa no amigo.
-  srio, P. Vai tomar banho, lavar esse rosto, passar um batom, um rmel... Essa a no  minha amiga.
- Eu no tenho condio de fazer isso...
- Claro que tem. Imagino como voc deve estar arrasada, mas no me deixa te ver assim. A gente tem todo o tempo do mundo para conversar, vai que eu espero.
Parecia frescura, mas o banho frio foi a melhor coisa que poderia ter feito; deixou-a de cara nova, tirou o restinho de Vicente que ainda estava impregnado em seus 
poros. Mas, embaixo do chuveiro, pensou novamente na burrada (era incontrolvel), lembrou do dia em que conheceu Luiza, a primeira carona, o primeiro segredo, a 
primeira viagem, a primeira liquidao juntas...
Com cara de banho tomado, de roupo verde-alface e toalha roxa enrolando o cabelo, Penlope voltou  sala.
- Nossa, como est cheirosa! Tem biscoito de chocolate na cozinha?
- Eu no tive culpa, Emlio! No tive! - disse, para logo depois emendar, chorando: - Mentira!  claro que tive! Eu fiquei com o Vicente! Mesmo sabendo que os olhos 
da minha melhor amiga brilham quando ele est por perto!
- Ai, minha Santa Teresinha, l vamos ns mais uma vez! Vem c, vem, meu ombro  um espetculo, um cura-tristeza de primeira.
Penlope se encolheu toda e aninhou-se nos braos do amigo.
-        Eu no presto, Emlio... Eu no valho nada...
-J que voc tocou no assunto, de novo... Conta como  que voc foi ficar com esse bofe. Sa do carro crente que o Vicente estava muito enganado de pensar que iria 
te conquistar. Achei que voc jamais cairia na conversa batida dele!
Penlope gelou. No tinha pensado direito no que a levara a ficar com Vicente.
- Sei que  a pior resposta do mundo, mas o vinho bateu! Eu no sou de beber, voc sabe, uma tacinha j me deixa "zuzo bem". Fiquei alta, e ainda feliz da vida por 
causa da pea...
- Ah, voc vai me desculpar, mas no engulo essa histria de embriaguez, depois a gente conversa sobre isso. Agora quero saber: que pea  essa?
-  um espetculo profissional que ele vai comear a ensaiar e me chamou para fazer. Com o Bomtempo na direo e a Laura Cardoso no elenco. Que tal?
- No acredito! Maravilha, P! Pelo menos nessa tragdia grega existe um lado bom! Oba, oba, oba! Sua carreira vai deslanchar, voc vai...
-Alou! No vai ter pea nenhuma, ignorei o convite, mandei ele s favas!
- O qu?! Estou chocado! Como assim, doida? Era a sua primeira grande chance! - berrou Emlio, com as duas mos na cabea, olhos arregalados, completamente estupefato.
- Pra com isso! Eu sou a vil dessa histria, no entendeu ainda? Voc no tem que querer nada de bom para mim!
- Deixa de dizer bobagem! Por que voc ignorou o convite? Tudo bem, voc errou feio com a Luiza. Mas no  por causa disso que voc vai tomar gosto pela coisa e 
errar de novo! Recusar trabalho, dinheiro, fama, flashes, festas VIP, ilha de Caras, faqueiro da Caras, castelo de Caras, programas de fofoca, paparazzi correndo 
atrs de voc... Penlope! Voc virou as costas para o paraso! S pode ter endoidado! Ou emburrado.
- Eu estou com um problemao e voc prefere brincar, me chamar de burra?
- ! Burra! Eu tenho uma amiga burra! Eu tenho uma amiga burra! - cantarolou Emlio.
-        Isso, pisa mais um pouquinho!
-        Ok, voc pediu. Que historinha para boi dormir  essa de "vinho bateu"? Com vinho ou sem vinho, voc sabe fazer jogo duro quando quer, j vi vrias vezes.
Penlope no tinha resposta para aquela pergunta. Na verdade, no havia pensado numa resposta. Passara o tempo se martirizando. Resolvera culpar o vinho, simplesmente. 
Sem contestar ou questionar.
-        Foi o que aconteceu. Ele veio para c, fez o convite, bebemos para comemorar, ficamos conversando e ele...
-        Ele o qu?
-        No ri, t? Foi o vinho, foi por causa do vinho que eu embarquei na conversa dele. Voc sabe que eu no sou nenhuma idiota!
-        Fala!
- O Vicente veio com um papo de conhecer melhor os personagens. Me chamou para danar, me pediu um beijo...
- Beijo!?  a histria mais absurda que eu j ouvi em toda a minha vida! Nem criana acreditaria numa coisa dessas! "Conhecer melhor os personagens"... t boa?
- Como assim, Emlio? Deixa de ser radical!  que juntou tudo: minha alegria pelo convite, o vinho e a vontade de conhecer o personagem, que...
-        Voc quer enganar quem, chuchu? Voc? Isso no existe, P! Onde j se viu querer entrar em personagem de madrugada, depois de uma festa, com lcool nas 
idias? At parece que voc  uma inexperiente! No acredito que caiu nessa conversinha!
-        O que voc quer dizer com isso, Emlio? Ele no economizou palavras.
-        Essa  a desculpa que voc inventou para justificar o que aconteceu, mas, na verdade, est na cara que voc sempre teve uma queda pelo Vicente. A nica 
coisa que te impedia de qualquer aproximao maior era a Luiza. Mas, com o vinho, foi como se ela nem existisse.
-        Claro que no!
-        Claro que sim! O vinho tirou o obstculo Luiza. S isso. E te deixou sem culpa para fazer o que queria.
- Eu no queria!
- Claro que queria, Penlope! E voc sabe disso.
O clima ficou pesado. Era a mais absoluta verdade. Emlio estava certo e Penlope sabia. Passou, ento, a se sentir a pior pessoa do mundo, desandou a chorar.
- Calma, linda. Aconteceu, mas foi s sexo! - Emlio tentou aliviar, em vo.
- S sexo? Voc acha sexo pouca coisa, Emlio? O que  mais do que sexo, ento?
- Garanto que se voc for passar uns dias na minha casa em Itaipava vai voltar pensando como eu.  que acabou de acontecer, voc no consegue pensar em outra coisa!

- No d, no d!
- Eles nem eram namorados, eram?
-        At agora no oficializaram a relao, mas saem direto h mais de cinco meses! Se isso no  namoro,  o qu?
- Amizade colorida! Ai, que coisa mais antiga e cafona eu falei!
- Eu e a Luiza somos grudadas! A gente se fala dez vezes por dia! Alm do mais, se eu ficasse longe por trs semanas, na volta no ia agir naturalmente.
- Mulheres!
- Se bem que...
Penlope foi interrompida pelo telefone. Atendeu num impulso, no costumava fazer isso, tinha por hbito deixar a secretria ligada para peneirar as ligaes e atender 
s as de seu interesse. Arrependeu-se profundamente. Da praia, apreensiva com o sumio matinal da amiga, Luiza despejou:
-        At que enfim! Estava preocupada! Por que no me ligou at agora? J deixei mil recados na secretria, no ouviu? O que aconteceu? Estava dormindo, ainda? 
A praia est maravilhosa, o mar est cristalino, uma piscina! S falta voc!
Penlope ficou com nojo de si mesma ao ouvir a voz de Luiza. Queria morrer. Quis contar tudo.
- Acordei com uma enxaqueca horrvel.
- E por que no retornou minhas ligaes?
- S ouvi agora, acabei de acordar - disse, louca para desligar.
- Como assim? So trs da tarde e voc acabou de acordar? O final da festa foi bom, hein!?
As coisas iam de mal a pior.
-        Luiza, depois a gente se fala. Deixa eu acordar direito. Luiza achou a amiga estranha. Penlope no era daquelas
pessoas que acordam de mau humor.
- Est tudo bem?
- Arr, deixa eu voltar para a cama. Depois a gente se fala.
- Beleza. Te ligo mais tarde, ento. Posso s dizer uma
coisa?
- Pode.
- Eu te amo. Voc sabe que pode contar comigo para o que precisar, n?
Penlope ficou com o corao apertado, do tamanho de uma cabea de alfinete. Aps alguns minutos de um silncio inevitvel (ou as lgrimas jorravam por seu rosto 
ou ela respondia  amiga, as duas coisas juntas, impossvel), a estudante de teatro simplesmente disse, olhando para o cho enquanto socava a parede, sofrendo, com 
tudo por dentro doendo, mexendo, remexendo:
- Sei. Tambm te amo, Luiza.
- Posso te falar uma outra coisa?
- Pode - respondeu Penlope quase sem foras.

- O palhao do Vicente no deu as caras, acredita? Penlope no conseguiu disfarar o nervosismo.
- Arr. Depois, Luiza, depois. Agora, tchau.
- Tchau. Beijo.
Naquele instante, Emlio comeou a entender o porqu da angstia de Penlope e percebeu o quo importante Luiza era para ela.
-        Voc viu como  que ? No liguei hoje e em troca recebo um interrogatrio! J imaginou se eu ficar fora por uns tempos? A Luiza morre de preocupao.
- No queria estar no seu lugar.
- Agora voc entende como eu estou me sentindo?
- Um trapo, amiga. Um trapo velho, usado.
Um minuto de silncio, os dois entreolharam-se. Emlio decidiu:
- Voc tem de contar tudo hoje.
- Hoje? - assustou-se Penlope.
-        Hoje. Tem de ligar para ela, chamar para sair e falar tudo. Mas sem entrar muito em detalhes, como vocs, meninas, adoram fazer.
- Hoje? Hoje, Emlio?
- , mona! Voc no estava louca para contar? Assim acaba logo com essa angstia!
Numa rpida frao de segundo, Penlope pensou e repensou o assunto.
- ... voc est certo - disse, com firmeza. - Vou marcar com ela na sua casa, ento, posso? Aqui, onde tudo aconteceu, eu no conseguiria olhar no olho dela, e 
na casa dela no d, a me da Luiza me odeia.
- Isso no  assunto para falar dentro de casa, P! O melhor  marcar num lugar pblico, para evitar reaes desagradveis. A Luiza  certinha demais para fazer 
escndalo na frente dos outros.
Por alguns minutos, Penlope permaneceu esttica, olhando para o nada. Um filme estava passando por sua cabea, era como se um Melhores momentos de sua amizade com 
Luiza estivesse em exibio no cinema dentro de seu crebro, com cenas que a deixavam com vontade de chorar ainda mais. Tentou pensar se algum dia se sentira to 
deprimida.
No, nunca.
Acabou chegando a uma concluso.
-        Hoje  noite conto tudo. Preciso voltar a gostar de mim, a parar de me achar a figura mais horrvel do mundo, quero botar a cabea no travesseiro e dormir 
direito, sem culpa. No quero prolongar esse sofrimento. Vou abrir o jogo com a Luiza, custe o que custar. De hoje no passa.





PENLOPE RESOLVEU seguir os conselhos de Emlio. Achou mais conveniente chamar Luiza para um lugar movimentado a fim de evitar escndalo. "A Luiza no  barra-queira, 
 toda tmida", ele tranqilizou a amiga, antes que ela sasse para o grande encontro.
As duas combinaram de se ver s nove da noite na movimentada Chaika, uma lanchonete fincada h vrias dcadas na Visconde de Piraj, no corao de Ipanema, que costuma 
ficar cheia de estudantes ( perto de duas universidades, famlias, turistas e ipanemenses loucos por glicose).
Falar novamente com a amiga por telefone fora uma prova de fogo. Nem ela sabia descrever o que sentira. Parecia uma espcie de gastrite em tempo integral. Isso sem 
mencionar a fraqueza, a vergonha de si mesma.
A toda hora Penlope se massacrava perguntando por que cara na conversa de Vicente. E a toda hora a sinceridade de Emlio ecoava na sua memria, embora ela tenha 
tentado ao mximo rejeitar a verso do amigo de que teria uma paixo incubada pelo diretor.
Por outro lado, sabia que no era to diferente das demais meninas que, se no tinham uma queda, um precipcio por Vicente, certamente viriam a ter um dia. O olhar 
de menino carente, as covinhas (na bochecha e no queixo), o sorriso largo, o jeito de passar a mo no cabelo, a voz rouca, o perfume, o estilo, o maxilar bem definido... 
No era nada difcil se interessar por ele.
Chegou  concluso de que, escondidinha em seu subconsciente, talvez existisse alguma remota atrao por
Vicente. No era fcil pensar de forma to fria, mas ela percebeu que num lugarzinho de seu corpo sempre esteve guardada uma inofensiva vontade de Vicente. Vontade 
que d e passa na maioria das meninas que faziam teatro na Casa do Ator. Ela era como as outras: sonhava ficar sozinha  luz de velas com o abdmen mais definido 
da classe teatral carioca, mas achava que isso jamais aconteceria e no entrava em maiores confabulaes.
O xis dessa questo  que Penlope achou que a atrao (ou paixonite, ou amor ou paixo incubada) por Vicente tivesse morrido ou, no mximo, estivesse dormindo pesado 
num canto qualquer do corao, do crebro ou de algum outro rgo - ela no tinha idia de onde esse tipo de sentimento se escondia.
Os indcios de que tinha uma queda por Vicente, ela acreditava que mandara embora no dia em que ele e Luiza trocaram os primeiros olhares na Casa do Ator. Apesar 
daquele engrena-desengrena que acontece com alguns casais em comeo de relacionamento, os dois estavam juntos; Vicente e Luiza, sua melhor amiga, formavam um casal. 
E Penlope achou, sinceramente, que sua queda pelo diretor poderia evaporar do dia para a noite, era s ela querer.
Para Emlio, a paixonite nunca deixara de existir e, ainda por cima, era mal resolvida. "E nada pior do que paixo mal resolvida", ele avisou. No houve santo que 
o fizesse mudar de idia durante as quase quatro horas em que os dois permaneceram juntos. E, por causa de tanta persistncia, Penlope acabou dando o brao a torcer: 
talvez ela sentisse mesmo algo mais por Vicente.
Mas se ela gostava ou no do diretor, se nutria ou no algum sentimento mais forte por ele, isso no estava em questo. Pensaria no assunto num segundo momento. 
A traio, sim, era a pauta do dia. A traio que acabara de acontecer. Estava logo ali, num passado bem recente, quentinha na sua memria.
Sua nica vontade agora era contar para Luiza. Mesmo sabendo que, segundo as previses do mago Emlio, ela jamais lhe perdoaria.
A lanchonete estava bem cheia. Meninas douradas e lotadas de acessrios dourados refestelavam-se dividindo um milk-shake gigante e reparando na roupa e no cabelo 
de quem entrava. Sentados mais adiante, um casal de namorados dividia romanticamente uma fatia de torta de chocolate; numa mesa animada, gringos interessantes devoravam 
uma salada incrementada e uma mesa ocupada por oito animadas e falantes cabecinhas brancas denotava que a pea no teatro ali perto ainda demoraria para comear.
Uma fila do lado de fora se formava quando Penlope chegou. A Chaika estava fervendo, bombando, tinha gente saindo pelo ladro. Gente comendo em p, gente em p 
sem comer, gente comendo com os olhos, gente experimentando, gente comprando para levar para casa, gente encomendando, gente perguntando se tinha torta light, gente 
 bea.
Emlio acharia aquele lugar o cenrio perfeito. Penlope se constrangeu s de pensar numa possvel reao mais acalorada de Luiza. "No vou contar aqui, mesmo", 
ela decidiu, assim que ps os ps na Chaika.
Entrou num p e saiu noutro da lanchonete. Chegou a pegar seu celular, disposta a inventar uma desculpa para Luiza, mas pensou melhor. "Se eu no contar vai ser 
covardia. E covardia no combina comigo." Em plena calada, olhou para um lado, para o outro, e achou melhor entrar novamente e procurar pela amiga. "No posso desistir 
assim, facilmente. Se eu no falar hoje vou ter de falar outro dia, e assim vou s adiar o problema." Refletiu mais um pouco e decretou: "Vai ser difcil, mas o 
melhor a fazer  falar logo." Respirou fundo, enchendo de ar cada espao entre as vrtebras, e ps-se a procurar a amiga, que j estava esperando, comendo um pedao 
de torta de limo, sua preferida.
Penlope avistou-a e engoliu em seco. Luiza estava linda, queimadinha de sol, de vestidinho branco esvoaante, sandlia rasteira, trancinha no cabelo... nem sonhava 
com o que tinha acontecido.
E com o que estava para acontecer.
Ao ver Penlope, ela abriu seu sorriso mais cndido. Estava realmente feliz em v-la. Afinal, elas no costumavam ficar sem se encontrar por tantas horas. Seu rosto 
de menina fez com que Penlope se sentisse ainda pior.
- Preciso conversar com voc.
- Nossa, que sria!
- Um suco de tomate, por favor!
-        Que  isso? Voc odeia tomate, faz queimar seu estmago - disse Luiza.
-        Eu sei, no precisa me avisar.
-        Aconteceu alguma coisa! Eu sabia, achei sua voz estranha no telefone. Quer se abrir?
-        Cala a boca, Luiza!
-        Como assim? No desconta em mim no, Penlope! Eu no tenho nada a ver com isso! S quero ajudar!
Penlope s conseguia dar patada na amiga, mesmo sem saber o porqu. Era involuntrio.
O clima na lanchonete estava agitado, um murmurinho chato e contnuo atordoava a cabea de Penlope. As duas estavam mudas na mesa esperando o garom trazer o suco. 
Procurando o motivo de tanta hostilidade, Luiza tentava em vo olhar nos olhos de Penlope, que olhava para o teto, para os lados, para o relgio, para a mesa. "Que 
situao horrvel, meu Deus, que situao horrvel", pensava. Chegou a hesitar sobre contar a verdade. Podia contar meia verdade. "Gosto tanto dela, tanto, tanto..." 
E antes que o suco chegasse uma pequena voz interior sussurrou no seu ouvido: "Se voc no contar, ela nunca vai saber e vocs vo continuar amigas."
-        Olha o suco de tomate - disse o garom, pondo o copo na mesa.
De olhos fechados, segurando o choro, Penlope deu alguns goles grandes na bebida.
-        Chega! Ou voc conta agora o que aconteceu ou vou embora. No vou ficar olhando para a sua cara mal-humorada sem saber o motivo.  algum garoto?  a sua 
faculdade?  grana? Fala, P!
Penlope respirou fundo. Olhou fixamente para a amiga pela primeira vez na noite e disse, arrasada:
-         um cara, Luiza.
-        Mas quem foi esse que te deixou triste assim? Vou repetir o que voc sempre fala: nenhum homem merece as nossas lgrimas.  piegas, mas  verdade - respondeu 
Luiza rindo. -Conta quem . Eu conheo?
- Bastante.
-  o Gugs? - indagou, agora curiosa.
- No, Luiza.  o Vicente.
Penlope disse isso baixinho, para dentro, olhando para o fundo do copo.
- O Vicente? Como? Ele foi grosso com voc?
- No exatamente. Ele foi...
-        Ele ficou com algum na festa? Por isso voc est com raiva dele? Fala, P, fala! Pode dizer: foi com a Gisela, no foi? Ela estava dando muito mole para 
ele! Conta! No! No quero ouvir!
Penlope escutava absolutamente chocada aquelas frases que saam a mil por hora da boca de Luiza. Sem perceber, ela estava falando alto, chamando a ateno. "Olha 
o escndalo que a menina j est fazendo sem saber! Imagina depois que eu contar! Vai tentar me estrangular! Foi a maior roubada marcar com a Luiza aqui. Mato o 
Emlio!", pensou, arrependida.
- Calma, Luiza, fala baixo! Ele no ficou com a Gisela!
- Aaaaai, que alvio! Nossa, que coisa boa de ouvir!
- Luiza, me deixa fal...
- Eu decidi seguir os seus conselhos, P, quero que a nossa noite especial acontea logo, quero me entregar para ele. Decidi hoje, na praia. Eu quero ele para mim, 
Penlope! E no precisa ser para sempre. Quero s que seja infinito enquanto dure, como diz aquele soneto do Vincius - desabafou Luiza, comeando a ensaiar uma 
cara de choro.
O grupo de meninas douradas comeava a cochichar e rir e apontar para Luiza e Penlope. Uma famlia com crianas ao lado no conseguia tirar os olhos das duas, como 
se quisesse assistir de camarote  conversa.
- Fala baixo, est todo mundo olhando! O Vicente...
- O que aconteceu? Ele ficou bbado, deu vexame, vomitou? Fala!
- Eu dei vexame.
- O qu? Nunca te vi bbada! O que voc fez de errado? Misturou?
- Posso te pedir uma coisa? Pra de ser boazinha e engraadinha pelo menos por dois minutos? Por favor! O que eu tenho para te falar  srio demais e voc, a partir 
de agora, precisa ficar com raiva de mim. Raiva, entendeu?
Luiza levou um susto. Comeou a sentir no ar que aquela histria no acabaria bem.
-        O Vicente me deu carona e, no caminho, disse que tinha um convite para me fazer - comeou Penlope.
Luiza ouvia atentamente, com uma falsa esperana de que o caso tivesse um final feliz. Penlope fez uma pausa, mais trs goles no suco de tomate que escolhera como 
penitncia, e prosseguiu:
-        Me chamou para uma pea.
- Que bacana... - Luiza deixou escapar, sem muita animao, nem certeza.
- Pra! - reagiu Penlope, rspida, seca. - No  nada bacana. Ele subiu l em casa e a gente comeou a conversar sobre a montagem. A ele veio com um papo de conhecer
melhor os personagens, bebemos vinho... A gente acabou ficando, Luiza. Pronto, foi isso.
Luiza ficou imvel. Boquiaberta. Sem ao. Assim como o garom que se aproximava para perguntar se ela queria mais um pedao de torta. Ele parou ao lado da mesa 
e espichou o ouvido.
- No escutou o que eu disse? Fiquei com o Vic...
- Rolou?
- Rolou o qu?
- No se faa de idiota, voc sabe do que eu estou falando.
-        A resposta  sim - disse Penlope, roxa de vergonha. Silncio sepulcral na mesa da lanchonete. Agora era Luiza
quem no conseguia encarar Penlope de frente. Seu sangue ferveu. Ela parecia procurar palavras para dizer, gestos, olhares. Estava irrequieta, prestes a explodir. 
Olhava para os lados a todo tempo, mexia no cabelo, as mos suavam. E as malditas manchas vermelhas comearam a pipocar em seu colo e em seu pescoo.
Sua melhor amiga a trara. Em cinco meses de relacionamento, ela nunca dormira com Vicente; Penlope, sim, e na primeira chance. Parecia um pesadelo.
-        Voc tinha mesmo de me chamar aqui para me dar essa notcia? No podia ser por telefone?
O murmurinho em volta diminuiu, parecia que todos em volta queriam ouvir o que Luiza e Penlope conversavam.
- No. Sabia que iria te magoar e no queria fazer isso sem olhar no seu olho. Seria muito covarde da minha parte.
- Ah, que lindo, que amiga gente-boa voc ! Quis estar frente a frente comigo s para ter o gostinho de dizer: "Olha a otria sofrendo por minha causa, sacaneei 
bonito!" Para isso voc queria estar na minha frente?
-        No  nada disso, eu...
-        Nada disso, uma vrgula, sua... prostituta! Cala essa boca imunda! - gritou Luiza, sem conter a raiva. Penlope, mesmo chocada com o insulto da amiga, permaneceu 
calada, cabisbaixa. - Voc acertou, Penlope. Estou com muita raiva de
voc.
-        Com razo - disse Penlope baixinho, costas curvadas.
-        E voc no vai nem se justificar, n? Tentar explicar por que isso foi acontecer!
A lanchonete inteira, inclusive os outros garons, passou a observar com um prazer mrbido e uma curiosidade sdica a discusso das duas. Dava at para ver nas fisionomias 
quem estava do lado de Luiza e quem torcia por Penlope, a minoria.
-        No vou ser idiota e dar as mesmas desculpas que todos os que traem do. Mesmo porque voc no acreditaria. Eu no tenho nada a dizer, absolutamente nada. 
A no ser pedir desculpas e dizer que sinto muito. De verdade. - Agora era Penlope quem comeava a chorar.
-         inacreditvel! H quanto tempo voc finge que  minha amiga, hein? H quanto tempo fica do meu lado s para seduzir o Vicente?
Penlope chorava. Chorava muito. Cada palavra da amiga a feria como uma punhalada. Naquele momento desejou tudo de pior para Vicente, o verdadeiro culpado pelo inevitvel 
fim de uma grande amizade. Odiou-o como nunca odiara ningum.
-        Eu nunca seduzi o Vicente, voc sabe disso!
-        No seduziu no, s arrastou o cara para o seu apartamento.
-        Voc nunca vai me perdoar, n, Luiza?
- Perdoar? Ta uma piada boa! Diz para mim, que reao voc achou que eu teria? Deve ter pensado que a boazinha e engraadinha, a pastel que por tanto tempo acreditou 
que tinha uma amiga sincera, iria te dar um beijo na testa e falar "est tudo bem, vamos esquecer isso"! No sou a otria que voc pensa que eu sou no, t, falsa?
- Falsa? Se eu fosse falsa eu no viria aqui te contar isso tudo... - disse Penlope, surpreendendo-se com o palavreado da amiga, que parecia querer mago-la a todo 
custo.
-        Falsa, mentirosa, vulgar. E fcil, muito fcil! Penlope ouvia tudo. Para ela, a reao de Luiza e aquele
duelo verbal eram seus piores e merecidos castigos.
-        Bem que minha me sempre disse que voc era do tipo que gosta de seduzir s por diverso! Estava certa, porque voc no respeitou nem o meu namorado! Ficou 
com ele sem nenhum peso na conscincia!
- No  verdade! A minha conscincia est me matando, Luiza! - exasperou-se Penlope, os olhos vermelhos de choro e desespero.
- Se  verdade ou no eu nunca vou saber, mas o meu sexto sentido s me leva a achar que voc queria me ver mal. E sabe por qu? Porque voc tem inveja de mim! Sempre 
teve! Do meu dinheiro, do meu carro, do meu apartamento de frente para a praia de Ipanema, da minha vida boa, da minha felicidade com o Vicente!
- Que  isso, Luiza? Eu nunca tive inveja de voc! Assim voc est me magoando - disse Penlope.
- Ai, que pena! Estou magoando a traidorazinha? Quer saber? Eu tenho pena de voc.
- Pena? - perguntou Penlope, indignada.
- . Pena. Olha para voc, uma pobre coitada, cheia de problemas, mora num cubculo que parece um chiqueiro, tem pais separados...
- Os meus pais no tm nada a ver com essa histria! Deixa eles fora disso!
- Como, se so eles os culpados por voc ser assim? Esse monstro disfarado de amiga ntima! Essa pessoa baixa, que usa uma mscara de garotinha simptica e sorridente.
- Pra de falar assim... - irritou-se Penlope sinceramente.
- No consigo. Pensa comigo: seus pais no te vem nunca, como  que iam te educar direito? Deu nisso: voc cresceu acreditando que traio era uma coisa normal! 
Sua me deve, at mesmo, ter te ensinado a trair amigas, a ser uma aprendiz de prostituta.
- Chega, Luiza! Que agressividade  essa? Eu acho traio um negcio muito cado, deprimente! E me acho tudo isso que voc est falando e muito mais, mas no leva 
a conversa para um rumo que no tem nada a ver!
- U, no  voc que sempre diz que desabafar  a melhor coisa do mundo? Que eu preciso me soltar? Ento, estou seguindo seu conselho... amiguinha! - rebateu Luiza, 
sarcstica.
- Desabafa, mas no precisa humilhar nem passar do limite!
- Passar do limite? Olha quem fala! Logo voc, que passou de todos os limites ficando com o cara que eu amo, meu namorado! Tenho certeza de que voc se ofereceu, 
deve ter dado um mole descarado para ele, como faz com todo mundo!
- Caramba, Luiza! Voc sabe que est sendo injusta!
- Injusta, eu? Justo  ficar com o namorado da melhor amiga, no ?
- Pra de discutir como criana! Voc sabe que eu no sou desse jeito! Aconteceu, eu errei. As pessoas erram, sabia? Eu errei, assumo, e estou muito arrependida.
- Com amiga a gente no erra. Para no precisar se arrepender depois.
- Olha, Luiza, sinceramente, voc est fazendo uma tempestade num copo d'gua. Na boa!, ele nem era teu namorado!
Ao lado, um grupo de garotos engravatados ria alto, batia palmas e incentivava a discusso aos gritos de "Porrada! Porrada!".
Penlope ficou roxa. No de vergonha, mas de raiva. De Emlio. Desejou com todas as foras arrancar cada plo do corpo do amigo, um a um, com pina.
- O qu? No era voc que sempre me falava que eu estava namorando? Agora, porque ficou com o cara, vem dizer que ele era solteiro, que estava disponvel?
- No  isso...  que voc est falando de uma maneira!
- Como  que voc quer que eu fale com a filha de uma vendedorazinha de Recife que nem sequer terminou o segundo grau e nem sabe falar direito? Diz "asterstico" 
em vez de asterisco, "pudica" em vez de pudica... Como  que virou dona de loja to rpido? Dona de loja, no, desculpe, "empresria de moda".
-        Como  que ? - disse Penlope, que teve de se segurar para no voar em cima de Luiza. Sua me era amiga, maior incentivadora, maior companheira...
Luiza continuou, ignorando Penlope e aumentando ainda mais o tom de voz:
-        Imagino at os conselhos dela: "Para ser atriz, minha fia,  s saber seduzir a pessoa certa. Aprenda com a mame!"
-        Eu vou embora! Voc passou dos limites!
-        O que eu posso fazer?  a realidade; filha de mulher sem carter, sem carter ! Ou voc acha que eu acredito nessa histria de que a loja foi comprada 
com o dinheiro da poupana? Sua me  alpinista social, Penlope! No conseguiu nada por aqui e se mandou para o Nordeste para caar o primeiro fazendeiro gag, 
milionrio e apaixonado que topasse pagar suas contas e montar a loja para ela!
Penlope comeou a se levantar, com uma vontade imensa de meter a mo na cara de Luiza. "O que essa guria histrica est falando? Quem  ela para falar da minha 
me?"
-        Que  isso? Quer ir embora e deixar a amiga bobinha pagar a conta? No mesmo! Quem vai embora sou eu!
Luiza se levantou e sumiu rapidamente por entre as mesas. Penlope ficou em p, de frente para a pequena multido que no tirava os olhos dela. At quem estava do 
lado de fora da lanchonete parou para ver a discusso. Uns, com pena, outros, com olhares condenatrios.
O que fazer num momento desses? S havia uma opo.
-        A conta, por favor!




APESAR DO SOL FORTE, a gua estava absolutamente gelada. O mximo que Penlope conseguia era molhar as mos e o rosto de vez em quando. O cu azul e a voz de Grace 
Jones cantando La Vie en Rose compunham o resto do cenrio que ela escolhera para relaxar, descansar, refletir, chorar e, quem sabe, esquecer: a casa de Emlio, 
em Itaipava. Aproveitou que as frias estavam chegando, matou uma semana de aula e subiu a serra. Depois da discusso na lanchonete, tudo o que quis foi se isolar 
e pensar nas barbaridades que Luiza havia dito.
"Tudo bem, errei feio, eu sei. Mas xingar a minha me? Pr em dvida seu carter? Quem ela pensa que  para criticar minha famlia, minha educao? Falar mal da 
minha me, que a recebeu como princesa nas ltimas frias! Que a hospedou, deu comida e ainda a levou para conhecer os lugares mais legais de Recife!" Penlope no 
conseguia parar de pensar no episdio.
Se Luiza estava decepcionada, a recproca era verdadeira. A discusso a fizera parar para questionar a amizade que tanto prezava. Comeava a achar que Luiza de santa 
no tinha nada.
- Voc j reparou que barriga de refrigerante  diferente de barriga de suco? Se eu tiver que ter barriga um dia, oh, meu Deus, que seja de suco, que alm de mais 
chique  mais dura!
S mesmo Emlio para discorrer sobre tipos de barriga! E naquela hora, em que o pensamento de Penlope estava povoado pelo eco das palavras duras de Luiza. S mesmo 
ele para tirar por alguns instantes aquele ar pesado que se acomodara perto da amiga.
- No sabia que tinha diferena. Alis, seu maluco, nunca parei para pensar no assunto.
- Como no? So completamente diferentes! Barriga de refrigerante  que nem barriga de chope, flcida e redonda; a de suco  pontuda e dura que nem pedra.
Penlope caiu na gargalhada. Riu com vontade pela primeira vez em cinco dias enquanto pegava o copo de suco de caju que o amigo lhe trouxe numa bandeja roxa e amarela.
- Como voc classificaria a do seu gentil caseiro? - entrou no clima.
-  uma barriga difcil de ser analisada, sabe, Penlope? Ela foi elaborada ao longo de muitos anos.  feita de pinga da pior qualidade misturada com cerveja e usque 
paraguaio. Ta.  um caso a ser examinado a barriga pavorosa do Brino, Setembrino.
- Eu no entendo. No consigo imaginar uma me levando um beb inocente para registrar e dizer para o escrevente que o nome dele  Setembrino. Ela batizou o filho 
com esse nome! Por livre e espontnea vontade! Ele nasceu em setembro, n? E a nica explicao!
- Menina, tambm achava que era isso, mas ele  de novembro!
- Ento devia se chamar Novembrino - descontraiu-se Penlope mais ainda.

- Claro! Mas logo que ele chegou aqui eu tratei de rebatiz-lo. Seu nome, para mim,  Adamastor.
- O que tem a ver Adamastor com Setembrino, que at agora no entendi?
- Nada.  que achei legal ter um caseiro chamado Adamastor. Passa fidelidade, lealdade, gosto pela labuta e apego aos patres.  nome de gente esforada, que j 
trabalhou em grandes fazendas e sabe fazer um caf sensacional. Ele bem que gostou.
-        Adamastor quer dizer tudo isso? T boba!
-        Claro que quer! Olha s: "Adamastor, vai passar um caf", "Adamastor, faa meu jantar", "Adamastor, acabe de arrumar", "Adamastor, pague minhas contas", 
"Adamastor, tenho de ir para a Europa amanh ver o pr-do-sol em Paris! Faa minha mala de inverno", "Anda, Adamastor. Faz, Adamastor. Venha, Adamastor. Desce do 
palco, Tr."
-Tr?
-        E o apelido que inventei para quando eu estiver com preguia de dizer o nome inteiro. Esse nome cansa, t pensando o qu?
-        S voc para me fazer rir, Emlio!
-        E s voc para me fazer vir para Itaipava e deixar tudo de lado no Rio.
-        E porque voc me ama!
Era verdade, Emlio amava Penlope. E amava a casa de Itaipava, onde passara boa parte de sua infncia subindo em goiabeiras, escorregando em tobogs naturais, enfrentando 
o frio da gua de nascentes e da piscina. Seus pais estavam viajando, a casa naquele momento era s deles dois, amigos daquele tipo que se falam com os olhos.
- Sua sorte  que meus clientes de shiatsu so gracinhas, entenderam quando eu disse que tinha de me ausentar para resolver um problema.
- Eu nunca vou esquecer isso que voc est fazendo por mim, viu? Voc  o irmo que eu no tive, adoro voc - disse, puxando o amigo para lhe dar uma bitoca estalada 
na bochecha.
Os dois permaneceram abraados um tempo, Emlio fazendo em Penlope um cafun que s ele sabia fazer.
- Posso repetir La Vie en Rose?  a msica da minha vida! Sem contar que eu i-do-la-tro Grace Jones. Aquele espetculo em forma de gente.
- A casa  sua, o disco  seu e o som tambm! Bota a msica quantas vezes voc quiser.
Emlio puxou a amiga para danar. Rodopiaram em volta da piscina com o som altssimo, os cachorros da vizinhana latindo e Setembrino/Adamastor de longe olhando 
a cena meio desconfiado. O cu lindo e Grace Jones numa de suas inesquecveis performances acabaram por transformar aquela tarde num momento feliz.
Era a primeira vez que Penlope, desde que chegara a Itaipava, se permitia danar, brincar, gargalhar. E parar de pensar em Luiza, uma amiga - ela chegara  concluso 
- no to amiga assim. No to sincera, no to ingnua, no to sem maldade como sempre imaginara.
No dia seguinte, o mesmo calor, o mesmo cu. Desde cedo Penlope estava estirada sob o sol, lendo os jornais e se entupindo de suco de maracuj com muito gelo.
-        Desse jeito voc vai ficar preta, mulher! No vo nem te reconhecer na rua!
- Seria timo se isso acontecesse. L estava ela triste novamente.
- Ai, caramba! J est pensando besteira de novo?
-        No.  que fiquei pensando no que o Pricles te disse ontem  noite!
-        Ai, j estou arrependido de ter contado!
- Poxa, que baixaria a Luiza espalhar para todo mundo o que aconteceu! O que ela ganha me difamando?
- Foi a maneira que ela arrumou de se vingar, P! No enxerga?
- Nunca mais piso na Casa do Ator! Nunca mais!
- Olha a besteira! Olha a bobagem!
- Devem estar todos me odiando!
- Claro que no, cada um deve ter tirado uma concluso.
- Duvido! Ela deve ter falado cobras e lagartos sobre mim. Tudo aquilo que me disse na Chaika!
A lembrana foi dolorosa e Penlope comeou a chorar. Chorar alto, que nem criana fazendo manha. Com a voz embargada e entre soluos, ela continuou a dividir sua 
dor com o amigo:
- Ainda inventou que o convite para a pea com o Vicente era mentira! E todo mundo deve ter acreditado, porque j tem uma atriz ensaiando o papel l na Casa! Eu 
estou ferrada, Emlio! No sei se eu merecia esse castigo todo!
- No viaja, P! Que castigo? Que exagero! Vou proibir o Pricles de ligar para c! Onde j se viu? Ligar para fazer fofoca!
-Ainda bem que ele ligou! Assim eu fico sabendo das coisas e no sofro ainda mais quando voltar para o Rio!
- Stop, please! Se voc est sofrendo, ela tambm est! Se voc saiu mal dessa histria, ela tambm saiu!
- Como, se ela contou a verso dela dos fatos?
- A Luiza saiu como trada, Penlope! Quer coisa pior do que alm de ser trada ser mundialmente conhecida como trada? Tanto ela est se sentindo mal que trancou 
matrcula na Casa! Foi at l s para fazer intriga!
-As coisas no so to simples assim, Emlio... Voc sabe que todos devem estar me achando uma bruxa.
-        Quem te conhece bem sabe o que voc est sentindo e no vai deixar de gostar de voc. E quem no te conhece, sinceramente, deve estar morrendo de inveja 
de voc, que ficou com o diretor mais fofucho daquela escola de teatro! Alm do mais, tem um bando de gente sentindo a sua falta, perguntando por voc, o Pricles 
no falou? Isso voc ignora, n?
- Falou, mas aposto que  gente querendo matar a curiosidade, querendo me perguntar detalhes, ou gente pronta para me trucidar, me chamar de traidora, sem carter... 
ou prostituta... como a Luiza prefere... - disse, os olhos lotados d'gua.
- Que  isso, chu! Voc  toda muderna, descolada, independente, segura, multifacetada, botafoguense! No pode sofrer por antecipao por causa disso!
Penlope at sorriu, mas seu olhar desceu e se fixou no tapete. Voou para longe dali. Emlio a trouxe de volta.
- Eu no posso acreditar que voc, voc!, vai ligar para a opinio das pessoas! Ns no ligamos para o que as pessoas pensam ou deixam de pensar! Alou! As pessoas 
no pagam as nossas contas!
- Eu sei! Eu sei!
- No estou entendendo a sua reao! Parece uma mulher dos anos 50, preocupada com o julgamento da sociedade. Caguei para a sociedade!
Penlope ouvia atentamente o amigo, que a bofeteava com palavras certeiras. Emlio estava cheio de razo, aquela no era ela.
- Voc acha que eu estou superdimensionando o problema, no ?
- Acho. Est fazendo um dramalho. O tempo apaga tudo, P. As piores dores, os piores amores...
- Eu sei. E concordo! Mas o meu medo no  s que a minha reputao fique na lama, sabe? Meu medo  perder meus amigos,  ver pessoas que eu amo perderem a confiana 
em mim, pararem de me ligar, de me procurar, de me querer bem...
-        Imagina! Ningum vai fazer isso! Nunca! S quem for idiota e no merecer sua amizade.
Penlope pegou a mo do amigo, apoiou seu rosto sobre ela e fechou os olhos, sorrindo.
-        Obrigada, Emlio. Por tudo.
Se no fosse ele, Penlope talvez deixasse a angstia transbordar de uma maneira esquisita, torta. Com o amigo, tinha chance de contar mil vezes a mesma histria, 
ouvir-se recontando pela milsima vez a mesma histria e, dessa forma, ajustar os fatos na cabea, botar os pingos nos is.
Emlio era seu porto seguro. E ele gostava disso. Gostava de dar conselhos para Penlope. Ela no era do tipo que pede conselho e faz o contrrio do que voc fala. 
Faz exatamente o que voc fala. E como Emlio se achava o dono da verdade (e a-do-ra-va meter o bedelho na vida dos outros), sentia-se con-fortabilssimo na funo 
de conselheiro oficial da amiga.
- E o Vicente? O Pricles disse se ele comentou alguma coisa?
- Ah, provavelmente falou aquilo que eu te disse, que te seduziu com a maior facilidade! Mas o Pricles tambm no  nenhuma Mata Hari! Homens s contam essas coisas 
para os amigos, como  que ele vai descobrir?
- Tomando banho no vestirio no mesmo horrio dele, u.
- No estou entendendo... Que interesse todo  esse sobre o que o Vicente comenta ou deixa de comentar? No seria uma curiosidade feminina? No ser que, na verdade, 
voc est louca para saber se ele gostou ou no da noite fatdica?
- T, t. Vamos parar de falar nisso, ento! Chega!
- Aleluia! Vamos falar sobre o qu, ento? Brad Pitt, Leo DiCaprio, Ru Paul ou sobre as roupas e as idades dos famosos na Caras? A ltima opo, por favor! A ltima 
opo!
Os dois acabaram rindo de novo. Emlio tinha o dom de deixar Penlope alegre.
 tarde ela se enfurnou no quarto para fazer bijuterias. Penlope tinha decidido vend-las por l mesmo, nos colgios, na igreja, nos bares, no clube... E pensava 
na idia de passar mais tempo do que o previsto em Itaipava. At que, de repente, saiu do quarto esfuziante, desceu as escadas correndo e se jogou no colo do amigo, 
que assistia pela ensima vez a Uma linda mulher.
-        Vou para Nova York, Emlio!
- O qu? Ficou maluca? Duas horas atrs voc estava certa de que seria a garota-bijoux da regio serrana! Que foi que aconteceu? Agora quer ser Manhattan 's star?
- Isso! Todo mundo se d bem l! Acabei de ler nessa revista uma reportagem com gente que foi para a Big Apple e arrebentou!
- Arr... s um toque, amadsima: voc sabe que existem milhares de pessoas que se do mal em Nova York e no aparecem nas revistas, n?
- D-! Claro que sei, fao faculdade de jornalismo, esqueceu? Mas no adianta, botei na cabea que tenho de ir! Meu sexto sentido diz que vai dar tudo certo!
- E a grana?
-Os meus pais pagam.
- Como  que voc tem tanta certeza disso? A coisa est preta, est todo mundo sem dinheiro!
- Meu pai, no; est bem de vida, at barco tem agora. E ele sempre quis que eu fosse estudar fora! Tenho certeza de que ele vai me apoiar.
-        Que vida boa, hein? E s ligar que papai ajuda?
-        Se eu pedir uma coisa ftil e desnecessria, no! Mas pedir para estudar para ser algum na vida? Tenho certeza absoluta de que ele libera a grana na hora! 
A mame tambm vai querer ajudar, aposto!
- Mas por que essa deciso to radical?
- Meu corao est pedindo - respondeu, segura.
-        Penlope, voc est pensando em mudar de pas por causa desse lance todo com o Vicente e a Luiza?
Penlope quedou-se pensativa. Baixou os olhos, depois a cabea. E admitiu:
-        Talvez.
- Criatura, pela milionsima vez: daqui a pouco o mundo esquece!
- Eu tambm quero esquecer! Mas em Nova York eu vou ter coisas novas acontecendo em volta, minha vida vai andar noutro ritmo, eu terei novas metas, novos interesses. 
Assim eu no vou ficar pensando nessa traio horrorosa 24 horas.
- Isso para mim  fuga. Voc est fugindo da Luiza.
- No  isso! Est bem, tem um pouco a ver com isso, sim.
- Claro que  isso, mona, que outro motivo te levaria a voar para fora do Brasil?
- Ah, Emlio, eu no quero vender bijuteria a vida toda, n? Quero estudar para ser uma atriz de verdade! E acho que um futuro bem bacana pode estar esperando por 
mim em Nova York.
- No  melhor pensar mais um pouco?
- No. Est decidido! Vou ligar agora para o meu pai.





A INTERNET PASSOU A SER o principal entretenimento de Luiza. Depois de espalhar sua verso do episdio traio para todos da Casa do Ator, enfurnou-se dentro de 
casa; no saa do quarto nem para comer. Descobriu as maravilhas do mundo moderno em seu computador. Ficava horas interminveis navegando pela web, coisa com a qual 
nunca sonhara. Sempre achara montono e sem graa. Mas gostou tanto que acabou fazendo at curso on-line de espanhol - e tambm de grego, mas parou no meio. Luiza 
adorava estudar, aprender, mesmo nas horas vagas.
Divertia-se tambm nas salas de bate-papo com um bando de gente que s "conhecia" pelos apelidos. Nick, Loura21, _discsouza, Feijol309, Portuga, Ruivinha, Cabelo, 
e por a vai. Ela gostava daquela distncia. Nenhum rosto, nenhum nome, nenhuma intimidade. S muita conversa jogada fora. Pessoas que eram apenas letras, no tinham 
forma, cor, fisionomia, pessoas que ela nunca viria a conhecer.
Para Luiza, a Internet era o nico meio de ficar fora da mira de "falsos amigos". Ainda estava magoada com o que acontecera. Alm de tudo, Vicente foi um completo 
idiota, fugiu dela como o diabo da cruz. No atendia a telefonemas, no respondia a recados, no retornava as ligaes, ignorava sua existncia. Simplesmente sumiu, 
o que muitos meninos (de qualquer idade, raa, credo, time) adoram fazer quando no querem mais nada com a garota ou quando acham que no tm nada a dizer. Pensam 
mais ou menos assim: "Se a relao est acabada, por que cargas-d'gua tenho que discuti-la? Discutir o qu?"
O fato  que Luiza, antes uma semi-analfabeta em matria de computador, estava se tornando uma micreira inveterada. Voltava correndo da faculdade s para checar 
sua caixa postal e atualizar seu blog, que mantinha sob o nada modesto pseudnimo de Beautiful Lady, seguido da frase "o blog da menina que  muito mais que um rostinho 
bonito".
Com os novos amigos que fez na rede, que podiam ser neozelandeses, portugueses ou capixabas, ela jogava gamo, trocava e-mails com cartes animados, flores e, claro, 
aquelas piadinhas insuportveis que muita gente, mesmo sem achar graa, passa adiante.
Ficou to viciada em navegar que preocupou os pais. Mas nada que a fizesse abandonar o mundo virtual. Convenceu-os de que estava bem mais culta desde que comeara 
a se interessar por Internet, j que passava o dia a ler e a escrever - e Luiza no era do tipo que trocava "beijo" por "bj", muito menos "voc" por "vc". E "no" 
era "no", no "naum". Recusava-se a entrar nesse dialeto virtual em que o portugus que ela tanto prezava virara uma miscelnea de cdigos esquisitos.
Amigos e dialetos virtuais  parte, no fundo ela estava triste de dar d. Depois de umas semanas da discusso na lanchonete, comeou a considerar a hiptese de ter 
exagerado com Penlope. No que estivesse arrependida. Para ela, o episdio fora um mal necessrio. Ela precisava dizer tudo que lhe vinha  mente. Queria mago-la 
10 vezes mais do que havia sido magoada. E, apesar da montanha-russa de emoes que corria pelo seu peito na hora, ficou genuinamente feliz por ter conseguido.
Trancada no quarto, alguns dias se passaram (devagar, mas passaram) e o santo tempo fez a ficha enfim cair. No demorou para que Luiza se pegasse perguntando "Para 
qu? Para que toda aquela cena?". Concluiu que Vicente era como 99% dos caras que conhecia: bobo, covarde, com medo de compromisso, fraco, volvel, insensvel, mulherengo. 
Em bom portugus, no, ele no merecia que duas amigas brigassem por sua causa.
Mas foi o que aconteceu. E por mais sozinha (e solitria) que estivesse, no aceitava a idia de procurar Penlope para pedir desculpas, para conversar, para discutir 
mais e mais alto, para qualquer coisa. No queria v-la na frente por um bom tempo. "Ela que tem de me implorar perdo. Ela que me traiu", pensava.
E traio, para Luiza, era um assunto que no tinha segunda chance, no tinha conversa. Era sujo. Era pequeno, vil. Incompreensvel. Imperdovel e ponto.
Estava amargurada. Fugia da solido no quarto embre-nhando-se na impessoalidade do mundo virtual para esquecer que no real no tinha mais ningum para discutir, 
vibrar, dividir, conversar, trocar, cobrar.
No ia a nenhum encontro que o povo da Internet marcava. Apenas via os "amigos" combinando de se conhecer ao vivo, mas no tinha coragem (nem vontade) de sair para 
encontrar um estranho que, por mais simptico que parecesse no Orkut, num chat, no MSN, num comentrio do blog ou num e-mail, podia ser um tarado, uma mala ou um 
nerd. No queria contatos fsicos. Era isso.
Um dia, esse quadro mudou.
Luiza passou a se corresponder cada vez com mais freqncia com um tal de Gabriel, mdico de Volta Redonda, cidade que fica a cinco horas do Rio. Certa vez, numa 
sala de bate-papo, ele a chamou em particular e escreveu: "Voc no acha que est perdendo tempo neste lugar cheio de idiotas? "Voc  to inteligente..."
Pronto. Ela a-do-rou! Largou o bate-papo comunitrio e ficou conversando s com ele. Pode parecer estranho, mas houve uma empatia virtual.  primeira vista, quer 
dizer, ao primeiro chat.
Nas conversas que se seguiram, Gabriel expressava-se sempre com opinies sensatas e coerentes. Era bem-humorado e parecia inteligente e competente. Com apenas 29 
anos, tinha um currculo razovel. Quando ele e Luiza se conheceram na Internet, havia cinco meses que tinha sido convidado para trabalhar numa das clnicas mais 
badaladas da Zona Sul. Alm de fazer parte da equipe do cirurgio-chefe, dava consulta dois dias por semana.
A profisso o tirara de sua cidade natal. Mesmo assim, ele ainda passava boa parte do tempo por l de sexta a domingo, ajudando o pai, um conhecido mdico de Volta 
Redonda, a construir e equipar sua clnica - um sonho antigo que agora se tornava realidade. Luiza babava. Pensava: "Alm de tudo  bom filho!"
Uma relao que se baseia na escrita tem l suas peculiaridades. Por exemplo, como perguntar se uma pessoa de seu interesse  casada ou solteira? A ttica de Luiza 
foi relatar com detalhes o escndalo da lanchonete. Assim, saberia a posio do mdico sobre fidelidade e aproveitaria para fazer aquelas questes bsicas que toda 
menina gosta de saber. "O que acha disso tudo?  casado? J foi? Pretende ser? Tem filhos? Quer ter? Quantos? O que  a mulher ideal para voc? Fidelidade : ..."
Do outro lado, um Gabriel perfeito, que nunca se cansou de dar razo a tudo que Luiza tinha feito, que levantava a bandeira da fidelidade com vontade. Em suma, dizia 
- ou melhor, escrevia, ou melhor, digitava - tudo o que ela queria ouvir.
A segunda bateria de perguntas de Luiza no tardou a vir. "Gosta de viajar? Fala outros idiomas? Pode me mandar uma foto? Verdadeira, hein? Gosta de gatos? E de 
cachorro? Fuma? Bebe? Usa ou j usou algum tipo de droga? Pratica esportes?  ciumento? Passa a tarde de domingo vendo futebol pela tev? Para onde a nossa relao 
est indo?" (Essa ltima, clssica das clssicas, ela desistiu de mandar no ltimo segundo. Achou que ainda estava muito cedo.)
No, Gabriel no era casado, mas pretendia casar-se um dia quando encontrasse sua metade. No tinha filhos, mas sonhava em ter dois, um casal. No fumava, no bebia 
(s um vinho de vez em quando), no usava drogas (ao que Luiza reagiu com uma seqncia de "oooobas" empolgados) e odiava esportes com bola. Gostava mesmo era de 
correr na praia depois de dar umas braadas no mar.
Ah!, sim! Sabia bordar (o que deixou Luiza atordoadamente feliz. "Que coisa bacana um cara admitir, e orgulhar-se!, de saber bordar! Ele  perfeito!"), aprendera 
com a av. Tricotar tambm, mas era melhor bordando. Cozinhava nas horas vagas (era craque em massas) e curtia Hitchcock, Fellini e Woody Allen.
E ouvia Chico, Gil, Cazuza, Beatles, Bob Marley, Jack Johnson, Clara Nunes, Marisa Monte... era movido a msica. E quase no via tev, preferia um bom livro. Lia 
Drummond, Fernando Pessoa, Manuel Bandeira, Jorge Amado, Joo Ubaldo Ribeiro, Lygia Fagundes Telles... E tocava violo. Gostava de tocar bossa-nova e os primeiros 
sambinhas do Chico - A Rita era seu preferido.
Luiza aproveitou a deixa para dar o que apelidara de "mentidinha virtual". Contou que era uma sambista de primeirssima qualidade, que quando sambava todo mundo 
parava para olhar, que seus quadris eram praticamente uma gelatina. Logo ela, que ruborizava s com a idia de sambar em pblico. Mesmo porque parecia uma extraterrestre 
sambando. Zero ginga, zero molejo, zero graa, a pior passista de todos os tempos.
Os dias se seguiam e, aos poucos, cada um deles se abria mais com o outro. Gabriel contou que gostava de viajar, de fotografar, de sair, de beijar, de conhecer gente, 
de trocar, de trabalhar, de sonhar, de realizar, de dividir. A medicina o deixava cansado, exigia-lhe muito fsica e mentalmente, ele escrevia, mas era a realizao 
de um sonho.
Ela dizia ser de Peixes com ascendente em Escorpio e lua em Sagitrio e escrevia que gostava de festa, doces, praia, sol, vento no rosto, cheiro de mato molhado, 
mergulho no mar perto da hora de o sol se pr, museus, MTV, Legio Urbana, Nando Reis, Rolling Stones, Paralamas, Tits, Ben Harper, dub, drum'n'bass, livros (Luiza 
gostava de ler, devorava vrios ttulos por ms, mas adorava histrias do tipo mulherzinha, com final feliz, bem gua-com-acar. Aqueles livros repletos de coraes 
partidos, encontros e desencontros, idas e vindas e baldes de lgrimas derramadas. Ficou com vergonha. E inventou)... Contou que lia Charles Dickens, Kafka, Heming-way, 
um Graciliano aqui, um Haroldo de Campos ali. "E Clarice, claro, como pude me esquecer de Clarice?", ela se divertia na frente da tela.
Isso  que  mentir com categoria, n no?
Luiza aproveitava o contato virtual para uma vez ou outra relembrar que no perdoava traio, que odiava falar (e gente que fala) com voz de nenm, que tinha medo 
de escuro e que era do tipo que puxava briga com quem joga lixo fora do lixo.
"Isso  um lixo", ela complementava. , ela tentava ser... hum... "engraadinha" na Internet.
Gabriel dizia ser bsico. Adepto do jeans com camiseta, tinha um sem-nmero de calas e camisetas brancas por conta da profisso e, por isso, nunca usava branco 
fora do expediente. No gostava de perfume, no era consumista e no entendia como uma mulher pode gastar quatro mil reais com uma bolsa de marca, "ou seja, pagar 
para fazer propaganda para a grife", ele indignava-se. E gostava de banana amassada com chocolate em p, e de tomar caf com leite gelado. O que mais?... Sonhava 
dirigir um documentrio sobre a emergncia de um hospital e gostava de sandlias.
Ponto para ele!
Luiza amaaaava ps masculinos  mostra!
Mas sabe o que mais fascinava a futura psicloga?
O seu amigo mdico escrevia lindamente, perfeitamente. Sua escrita tinha charme, personalidade, maturidade. E, pode-se dizer que Gabriel era um cara maduro. Engraado 
sem ser bobo, elegante sem ser esnobe, doce sem ser piegas.
Por causa dele, Luiza passou a perder o medo de se relacionar novamente. Foram vrios e-mails e conversas at tarde da madrugada contando histrias (umas verdadeiras, 
outras nem tanto) para Gabriel, que comeava a arrancar dela toda a tristeza e a mgoa que estavam ressequidas nas grutas mais escondidas de sua alma.
At Gabriel aparecer, ela no se aprofundara em papos na web. Mas as conversas com ele fluam to leves e eram to boas, eles pareciam conhecidos de longa data. 
Ela sentia-se  vontade teclando com ele. Ele pedia sugestes, dava conselhos, era atencioso e espirituoso, fazia Luiza rir. E ainda a bajulava com palavras lindas.
Ela fingia que acreditava. Sentia-se infinitamente melhor com aquele novo amigo, se  que podia cham-lo assim.
A rotina virtual seguiu tranqila at que um dia pipocou uma mensagem em sua tela.
Esse tempo chuvoso  muito chato, n? Pior ainda para quem, como eu, est sozinho. No tenho ningum para me esquentar no frio, nenhum cobertor de orelha... : o 
(
Voc conhece algo melhor do que uma namorada para a gente grudar nos dias frios?
Era a primeira vez que Gabriel tocava nesse assunto. At ento tinham falado sobre futebol, Internet, msica, cinema, amizade... Tudo bem... teve um mole aqui, um 
elogio mais apimentado ali, ah!, essas coisas. Mas Luiza ficou sem ao no primeiro momento, nunca havia sido paquerada on-line, dessa maneira descaradamente explcita, 
ainda mais por um mdico, e de 29 anos. O cara mais velho com que se envolvera at ento era Vicente, que tinha 24.
Em vez de ficar quietinha, como a antiga Luiza faria, preferiu ousar: Namorar  bom, n? Beijar  bom demais! Posso passar horas beijando. Beijo, quando encaixa, 
 uma delcia. :o)
Pensa que ela parou por a?:
Que vontade de beijar. Que vontade de sentir a sua boca na minha.
"Ai, meu Deus! Ser que peguei pesado? Mando ou no mando?"
Aquilo estava muito depravado para uma menina toda certinha, que s ficava com um menino se tivesse possibilidade de amor e blablabl... Pensou, pensou, pensou... 
"Essa  a vantagem da Internet, todo mundo pode extrapolar", disse para si mesma.
E apertou o enter.




S QUANDO SE SENTIU devidamente instalada e acomodada no nmero 312 da rua 13, entre a Sexta e a Stima avenidas, em Nova York, Penlope se deu conta: era oficialmente 
uma estrangeira morando em outro pas, com outros costumes, outra cultura e nenhum amigo.
At ento estivera muito ocupada convencendo a me -que tinha medo de que a filha se apaixonasse e nunca mais desse as caras no Brasil - e a si mesma de que a melhor 
coisa a fazer era estudar fora, aprender uma lngua, conhecer pessoas diferentes, ganhar mais maturidade, estudar teatro profissionalmente...
O pai, como ela previra, prontificou-se imediatamente a ajudar. Era seu sonho v-la estudando em outro pas. Em um ms, ela estava embarcando com tudo a que tinha 
direito: malas e mais malas, visto de estudante, lugar para morar acertado, matrcula no Atores Studio paga, mais sonhos, medos, expectativas...
Antes de entrar no avio, choramingou e repensou a vida. Sabia que voltaria uma pessoa melhor da viagem planejada s pressas, sob uma verdadeira intemprie. "E o 
meu caminho de Santiago de Compostela.  l que eu vou botar a cabea no lugar", ela explicou para a me e para Emlio.
Sentada na poltrona da aeronave, devorando um Toble-rone gigante, riu ao lembrar-se da frase de Emlio no aeroporto: "Tinha de ser para to longe? No dava para 
fugir da Luiza para Minas ou Florianpolis?"
Fuga ou no, isso ainda no estava certo na sua cabea, Penlope foi embora sem olhar para trs. Sabia que tinha muito a aprender no prximo semestre. Inclusive 
a lngua.
Pouco antes de viajar, a aspirante a atriz - que de incio alugaria um quartinho numa casa do Brooklyn - descobriu uma residncia s para mulheres, a Markle Residence, 
fincada no charmoso West Village, mais barata e muito mais bem localizada do que o tal quartinho.
L fixou endereo e logo enturmou-se com as japonesas, balinesas, canadenses, italianas, francesas, americanas e, claro, brasileiras (bastaram poucas horas para 
ela perceber que brasileiro era o que no faltava na Big Apple). Eram bailarinas, atrizes, instrutoras de Pilates, professoras de Educao Fsica, artistas plsticas, 
babs, danarinas de salo, flautistas, garonetes e estudantes do mundo inteiro, cada uma com um sonho diferente na bagagem, todas com a sensao (ou pelo menos 
a esperana) de que iam realiz-lo na "cidade que nunca dorme".
Mas nem s de jovens sonhadoras se fazia a Markle. Idosos tambm podiam morar no simptico prdio e logo Penlope ficou amiga do pessoal acima dos 70 anos, que respondia 
por cerca de 10% da ocupao do edifcio, que era jeitoso e aconchegante, apesar da cara - e do tamanho - de hotel (tinha 25 andares e mais de 20 quartos por andar).
Para completar, a residncia - que ela descobriu por acaso numa conversa com a amiga de uma amiga - tinha um terrao enorme com vista fenomenal de Manhattan. Assim 
que chegou, Penlope elegeu o lugar para passar a maior parte do tempo.
No terrao, sob o sol ou sob as estrelas, escrevia - poesias, frases, pensamentos, bobagens -, pensava, relembrava, espreguiava-se e contemplava Nova York, sempre 
com a sensao de que o cu l era "mais alto do que no Brasil".
Bastava um velhinho se aproximar para ela fechar a gramtica (Penlope tambm adorava estudar a lngua de Mick Jagger no topo de Manhattan) para aprender ingls 
na prtica. Com a galerinha da terceira idade, ou Feliz Idade, como Penlope se referia a eles nas cartas que escrevia para os pais e para Emlio, descobriu histrias 
lindas, emocionou-se, riu, aprendeu tradies e lendas americanas e aumentou seu vocabulrio da melhor forma possvel: conversando. E ouvindo.
As aulas informais botaram sua memria para trabalhar e, em uma semana, o idioma que aprendera durante a adolescncia comeou a desenferrujar, passou a sair mais 
facilmente da boca. O medo de errar foi abandonando-a e seu afinco no estudo da lngua acelerava ainda mais o aprendizado. Mas, apesar do esforo, seu ingls continuava 
assim, assim e era preciso ficar espetacular para que ela pudesse aproveitar ao mximo as aulas de teatro, que comeariam em trinta dias.
Enquanto o dia do curso no chegava, punha-se a desbravar o Village, a andar por suas pacatas ruas, a procurar um lugar para pegar o Village Voice (um jornal descolado 
de NY que todo mundo que  cool l e todo mundo que quer ser coo7 l tambm), a comer muffin na Magnolia Bakery, a ler horas a fio as revistas e livros da Barnes 
and Noble, a comer o melhor cachorro-quente do mundo numa rede de lanchonetes p-de-chul chamada Gray's Papaya. Sentiu-se uma tpica brasileira moradora do Village 
quando ficou amiga do Z, mineirinho fofo, dono e chef do Delcia, um charmoso restaurante brasileiro fincado no bairro... Um mundo novo descortinava-se  sua frente 
e ela estava adorando aquela novidade toda.
Andar por Manhattan dava-lhe um prazer absurdo. Em suas caminhadas ela fuava lojas de CDs, cermica, culos e decorao. Descobriu timos brechs e antiqurios 
no SoHo e encantou-se com o Central Park - era ainda mais bonito do que nos filmes. Alis, enquanto caminhava, Penlope sentia-se personagem de um filme, "NYC  
uma cidade-filme", ela decretou.
Aproveitou sua temporada nova-iorquina para visitar museus. Maravilhou-se com o Metropolitan, o Guggenheim e especialmente com a Biblioteca Pblica de Nova York. 
Fez o roure tudo. Achou a construo belssima.
Habituar-se com os meios de transporte de Nova York tambm no foi difcil. Em pouco tempo ela ia de metr a exposies, peas, restaurantes e parques, com a maior 
facilidade. Demorou apenas alguns dias a mais para compreender o que os vendedores de tquetes diziam. Eles eram grossos, mal-humorados, pareciam rosnar ao microfone 
quando ela fazia alguma pergunta.
Em seus passeios, Penlope olhava para o alto embasbacada e sonhava em ganhar muito dinheiro como atriz para um dia investir na criao de um "Maca Touf na Ma. 
"Vai ser sensacional! Imagina conhecer essa cidade deitado", viajava.
No demorou para encontrar um clube onde podia nadar por tempo indeterminado a 10 dlares por semana, um salo de beleza em que fazer p e mo no era o preo de 
um jantar num restaurante carssimo no Brasil e uma biblioteca prxima do prdio onde morava. Ficava a apenas quatro quadras da Markle Residence. L, lia livros, 
checava e-mails gratuitamente e dava uma espiada no mural de avisos para ver se tinha algo interessante para fazer.
Um dia, chamou sua ateno um comunicado do instituto de cegos de Nova York, em Chelsea, bairro vizinho ao
Village. No folheto, um texto convidava as pessoas para se cadastrar, como voluntrias, para ler para deficientes visuais. Penlope achou timo. Iria ajudar e, ao 
mesmo tempo, praticar seu ingls. Logo foi chamada e passou a ler para um senhor do Bronx chamado Robert, que, a cada dia, elogiava mais a melhora do sotaque da 
aspirante a atriz.
Feliz e com o idioma mais fluente, tratou de tentar arrumar emprego. Queria garantir uns dlares para dividir as despesas com seus pais. Era o mnimo que podia fazer.
Desceu da Markle, virou  esquerda, entrou no restaurante italiano vizinho  residncia e, bingo!, estava com sorte. Conheceu Gianne, o maitre, que estava  procura 
de garonete pois tinha acabado de demitir uma. Penlope comeou naquela noite mesmo. E em pouco tempo, com as gorjetas gordas que os ricaos que freqentavam o 
restaurante lhe davam, passou a ser a mais animada garonete da cidade.
Mesmo respirando, comendo, dormindo, sonhando e acordando em ingls, os micos foram incontveis. Ela perdeu a conta de quantas vezes pediu aos garons um "kidnap" 
(seqestro), em vez de um "napkin" (guardanapo), e de quantas vezes solicitou "the recepy" (a receita), em vez de "the receipt" (o recibo).

Em pouco tempo de NYC, Penlope j se autodenominava profunda conhecedora da grosseria dos nova-iorquinos (apelidou a "espcie" de Homo Grosserus), mas a cada dia 
gostava mais daquela cidade agitada. Sentiu-se uma tpica moradora de Manhattan ao cruzar com Woody Allen e a mulher na Park Avenue e ao servir Liv Tyler no restaurante 
em que trabalhava sem manifestar um pingo de tietagem. Tudo, claro, muito cool. Afinal, nova-iorquino que se preza ignora solenemente celebridades em geral. Nova-iorquino 
 o carioca dos Estados Unidos.
Com trabalho, livros e tanto desbravamento, ela praticamente no teve tempo de pensar em Luiza e no escndalo na lanchonete. Estava comprovado: ir para NY fora a 
melhor deciso.
Um ms se passou. Era chegada a hora de comear o curso de teatro to sonhado. A lngua j no era mais barreira, Penlope pensava.
Desde que decidira ser atriz seu sonho era ter aulas no Actor's Studio, por onde j passaram Marilyn Monroe e Marlon Brando. Logo no primeiro dia do curso, ela percebeu 
que no seria to fcil acompanhar o ritmo da aula e adaptar-se aos exerccios, tanto tericos quanto prticos. No falava to bem quanto imaginava e se soltar no 
palco em ingls era tremendamente mais difcil do que em portugus.
Pior ainda era interromper a aula para dizer que no tinha entendido. Gostava mesmo era da hora do relaxamento, quando todos ficavam mudos, absolutamente calados, 
alon-gando-se. O silncio era, incontestavelmente, um alvio.
Por isso, passou a estudar em dobro. Lia vrios textos por dia, via desenho animado (um amigo que morara fora lhe dera essa dica, de que era um ingls dito perfeitamente 
e fcil de entender), ouvia discos acompanhando as letras das msicas, assistia a pelo menos dois filmes por semana e no podia ver um velhinho de bobeira que puxava 
conversa. Ah!, tambm cortou relaes com as brasileiras. Achou que conversar em portugus estava dificultando seu aprendizado da lngua inglesa. Virou a antiptica, 
mas a estratgia comeou a dar resultado.
Aos poucos, o estresse dos primeiros dias de aula foi dando lugar a um imenso prazer. No demorou muito para se sentir completamente  vontade com seus amigos durante 
e depois das aulas, quando ia com eles a bares descolados para conversar sobre Stanislavski, Brecht, teoria teatral.
No fim do quarto ms de aula, sentia-se bem mais confortvel com a lngua e, com a fora de Ganesh, um indiano que tambm perseguia o sonho de ser ator na cidade, 
comeou a querer se aventurar pelos testes que povoavam o mural do Actor's Studio. Era teste para tudo quanto era lado. Teste para comercial de pasta de dente, teste 
para Garonete 2 em uma comdia de situao ou sitcom, teste para um papel de muda numa pea experimental livremente inspirada na Grcia Antiga (ui!)... Algumas 
produtoras exigiam o Green Card, mas Penlope tinha visto de estudante, o que a deixava habilitada para fazer a maioria dos testes.
"Meu Deus, nem acredito! Eu, euzinha, vou fazer meu primeiro teste em Nova York. Eu sou muito abusada, mesmo!", pensou, antes de bater na porta de Lisa Byers, uma 
agente para atores em incio de carreira que cuidaria de seus passos dali em diante.
vida de Penlope voltara a andar para a frente.





COM O ANONIMATO a seu favor, Luiza no se incomodava em ruborizar com alguma frase mais... picante que soltasse na Internet. Alis, depois de uns trs meses conversando 
on-line com Gabriel, ela tinha se transformado em outra Luiza.
Brotou uma menina que no existia no mundo real. Ousada, desavergonhada, que dizia ficar com vrios por semana, gabava-se por seduzir quem bem entendia, orgulhava-se 
por saber dar 97 tipos de beijo. Logo ela, a mais retrada, a mais preocupada com assuntos sentimentais e sexuais.
Mentia descaradamente. Chegou a afirmar que sexo no tinha nada a ver com amor e que no gostava quando os garotos ligavam logo no dia seguinte.
Vocs tm de aprender a fazer jogo duro! Ningum gosta de homem-chiclete! A gente se sente pressionada e s vezes foi s uma noite, mas o cara no entende... Isso 
acontece tanto...
Isso era Luiza na Internet. Virou Luiza Mente Que Nem Sente.
O tempo passava, os e-mails proliferavam (era comum perder a conta de quantas mensagens trocava com Gabriel por madrugada) e a curiosidade aumentava. Ela queria 
conhecer o rosto daquele cara do bem, simptico - que at agora no lhe mandara nenhuma fotografia -, saber como era sua voz, suas mos, suas unhas... Mas tinha 
vergonha de se convidar para sair. Muita vergonha. Afinal, no mundo real ela no era nem de longe a menina desencanada e desajuizada que era na web. E sabia que 
jamais conseguiria ser.
Um dia, chegou em casa da faculdade e, como sempre, foi correndo para a frente do computador. Levou um susto. O e-mail dele era curto e grosso:
Que tal pegar o pr-do-sol hoje no Arpoador? Te encontro l s cinco e meia, a gente se conhece, toma uma gua-de-coco... Que fique claro, Luiza, isso no  um convite, 
 uma intimao.
Ela gelou. Era tudo o que mais queria e tudo o que menos queria! Estava morta de curiosidade, mas no poderia encar-lo de frente! Como assim, conhecer um cara que 
s sabia mentiras a seu respeito? "Caramba, por que eu menti tanto? Tambm eu nunca achei que fosse ver ao vivo algum que conheci na Internet", ponderou.
Era sua primeira chance de sair do quarto e se relacionar com algum de carne e osso, to atencioso e amigo. Tomou a deciso: iria ao encontro. Se fosse com a cara 
dele, desmentiria tudo logo na primeira oportunidade. Seno, nunca mais o encontraria pessoalmente. Muito simples.
Combinaram as roupas, para no haver saias justas. Luiza iria de short jeans e camiseta branca de alcinha; ele estaria de bermuda jeans e camiseta preta.
s seis da tarde de uma tera-feira, viu-se, emoldurada pela paisagem deslumbrante do Arpoador, esperando pelo homem que supunha conhecer como a palma da mo. Que 
queria conhecer como a palma da mo. Achava at que sabia muito dele, mas aquele muito era to pouco...
"Imagina se ele for bonito alm de tudo o que ele me escreve?", seu pensamento voava longe. Ao mesmo tempo, seu lado mais mulherzinha temia que ele fosse sujo, barrigudo, 
mal-educado ou que tivesse dois ou trs dentes a menos. Afinal, se ela mentia, ele tambm devia mentir.


A cada vez que um homem feioso, sem graa e sem veneno se aproximava, ela repetia mentalmente "No pode ser ele! No pode ser ele!". Foram muitos "no pode ser ele!". 
J estava ficando desagradvel aquela sensao de garota abandonada, que levou bolo.
At que avistou, atravessando a rua, um todo bonito, com barba por fazer, cabelo curtinho, castanho-claro, olhinho azul, saradinho, nem muito alto, nem muito baixo... 
Lindo, lindo... S que, infelizmente, a camiseta era verde. Ela at j tinha se virado novamente para dar mais uma procurada, quando ouviu:
-        Luiza? Era Gabriel! Uau!
O mdico era uma coisa de louco! E tinha as unhas da mo direita maiores que as da esquerda (o que deixou Luiza encantada, ele tocava mesmo violo, no era mentira).
-        Voc no pode ser o Gabriel! - disse Luiza, incrdula, abrindo um enorme sorriso.
-        Voc  exatamente como eu imaginava! Linda!
- E voc  mentiroso, veio com a cor errada! - brincou Luiza, levemente irritada. Na certa ele fizera isso para poder escapar caso a achasse um bucho.
- Como assim, cor errada? Ser que eu confundi? P, foi mal! Mas que maravilha ver seu rostinho de boneca!
Como toda garota  igual, bastou isso para Luiza se derreter e cair de amores. E pior! J comeou a imaginar toda uma histria romntica com ele!
Tambm pudera. Seu sorriso era fofo, as atitudes eram fofas. Tudo naquele homem era fofo. Fofrrimo. Carinhoso, gentil, cavalheiro. Era o genro que sua me pedira 
a Deus.
Que me o qu? Gabriel era o namorado que Luiza pedira a Deus.
O sol caiu atrs da Pedra da Gvea, um espetculo que se repete diariamente, mas deslumbra pela perfeio, pelo cenrio, pela aura de Ipanema. Ouviram-se alguns
aplausos mirrados de quem parou para assistir, mas os dois nem repararam. S viam um ao outro. 
Conversaram  bea, assunto era o que no faltava. Riram muito, ele pediu desculpas pelo pequeno atraso, e Luiza j comeava a imaginar o beijo que logo viria. Aquele, 
sim, ela beijaria no primeiro encontro. Claro! O clima, o olho-no-olho, a mo-na-mo... Para ela, tudo isso j tinha acontecido, s que no mundo virtual.
Mas antes do tal beijo...
-        Luiza... vou te dizer, hein! Ningum imagina que voc, com essa carinha de anjo, escreve aquelas coisas! Guardei todos os seus e-mails. Eles me deixam louco, 
sua safadinha tarada! - sussurrou Gabriel.
Ui!
"Safadinha tarada" foi forte! Muito forte! Luiza tinha pouco tempo para pensar em algo. Viu que ele gostava do seu lado "bonitinha, mas ordinria", mas ela no era 
nada "bonitinha, mas ordinria". Pode ter sido a deciso mais burra, mas preferiu abrir o jogo. No queria comear uma relao em cima de mentiras. Se  que haveria 
uma relao depois da revelao:
- Olha, eu no sou nada daquele jeito, nada! Desculpa! Sei que deve ser difcil acreditar, mas eu inventei aquela menina liberada que tecla com voc!
- Quer dizer que era mentira? Voc  daquelas que se aproveita do anonimato da rede para mentir, Luiza? - perguntou Gabriel, indignado.
Ela no precisava ouvir isso. Mas sabia que estava colhendo o que havia plantado. J o via virando-lhe as costas, sem se despedir, irritado com a perda de tempo, 
indo embora para sempre do seu computador e da sua vida, com motivos de sobra.
-        E voc acha que eu no desconfiava? - Ele abriu um sorriso e ps sua mo sobre a de Luiza. - A Internet nos leva mesmo a contar pequenas mentiras sob o 
escudo do anonimato. Eu sei que  irresistvel!
-Jura? - perguntou, aliviada e com um sorriso no rosto. -Juro, princesinha. E quer saber? Eu tambm menti para voc.


Obvio que ela pensou o pior, era uma garota, afinal de contas. "Ele  casado, mora num cortio, tem seis filhos, nunca foi mdico e est s querendo se aproximar 
de mim por causa do dinheiro do meu pai", imaginou, num pequeno, porm considervel, acesso de desespero.
-        Eu te contei que tive um Porsche, n? Bem... No foi bem assim... Na verdade, eu aluguei um por uma semana em Miami. Deixou de gostar de mim?
Ufa! Luiza suspirou, para l de feliz. Aquilo quase nem era mentira.
- Claro que no! Mas e voc? Deixou de gostar de mim por causa das minhas mentironas?
- No acho mentiras. Acho verdades escondidas dentro de voc. Mas me tira uma dvida. Os 97 tipos de beijo...

- Mentira - antecipou-se Luiza, encabulada.
- Sabia! - disse ele, rindo.
O riso morreu. Restaram os olhares. Gabriel olhou fundo nos olhos de Luiza. Olharam-se durante um bom tempo at ele comear a brincar deslizando os dedos sobre os 
lbios de uma Luiza para l de derretida. Os dedos dela tambm se empolgaram e timidamente passearam ao redor da cintura de Gabriel. Aqueles eram, definitivamente, 
os melhores segundos antes de um beijo que tivera em sua vida. Iam ficar para a histria!
De olhos fechados, mas sorrindo com eles, a boca entreaberta, esperando a boca de seu mdico encostar na dela, Luiza vivia um momento de felicidade plena, um sentimento 
forte que a deixava de pernas bambas e peito quente. Que coisa gostosa de sentir!
O beijo foi o mais perfeito que j dera. Beijaram-se apaixonadamente durante minutos a fio, esqueceram-se da vida. O cu lils e o Dois Irmos pareciam abenoar 
o novo casal de Ipanema, que a partir daquele momento no conseguiu se desgrudar. Abraavam-se longamente, olhavam-se longamente em silncio.
Depois da empolgao inicial, Gabriel a chamou para jantar, mas ela achou melhor deixar para o dia seguinte.
Marcaram e ele apareceu na hora exata para busc-la. Foram a um restaurante japons e comeram sushi com os olhos grudados um no outro.
-Vamos para a minha casa? - arriscou ele, ao fim do jantar.
No conhecia Luiza mesmo!
- Ainda no.
- Por qu?
-        Porque no. - Ela se esforou, mas no conseguiu encontrar explicao melhor do que essa horrorosa.
-        Est bem, entendo, voc tem seu tempo. E eu respeito. "Lindo!", ela vibrou por dentro.
Ai, ai, garotas...
Saram mais trs vezes. Foram ao cinema, com direito a esticadinha no caf da livraria vizinha, no dia seguinte bateram o ponto num restaurante grego em Botafogo 
e, no fim de semana, Luiza fez o teste da praia. Gabriel foi aprovado com louvor.
Era lindo de bermudinha larguinha e peito nu, era todo bom. Foram juntos  Prainha, a praia preferida dele. Depois, almoaram moqueca de cao num restaurante escondido 
em Barra de Guaratiba e dividiram um pedao de torta alem de sobremesa.
- Voc fica linda queimadinha de sol.
- Voc acha? - fez charminho.
- Eu quero tanto ficar sozinho com voc, Luiza...
Ela tambm queria... Mas no pretendia voltar quele assunto.
- Por favor, Gabriel, eu no quero me sentir pressionada. Quando tiver de acontecer, vai acontecer, t?
- Mas voc... voc tambm quer ficar sozinha comigo... no quer?
Gabriel tinha um olhar pido enlouquecedor.
-        Claro que quero! Mas hoje no, vai!
-        Amanh, ento? Se no puder, pode ser depois de amanh, de manh bem cedo?
-Ai, pra! No  assim, tambm! No tem dia certo!
-        Olha a: se no tem dia certo, pode ser hoje, ento! Garom, a conta!
No adiantou. Nem o charme, nem a voz, nem a insistncia de Gabriel fizeram Luiza mudar de idia. No foi daquela vez.
Dois dias depois, entretanto...
-        Voc no quer conhecer meu apartamento? - perguntou, incisivo.
- No sei...
- No sabe o qu, linda? Tem medo de qu?
- Medo de nada! - tratou de retrucar, incomodada com a acusao. -  que eu nunca fui muito fcil, se  que voc me entende. Para falar a verdade, sempre foi meio 
contra os meus princpios sexo sem amor.
- Mas no vai ser sexo sem amor. Voc tem alguma dvida disso?
- Quer dizer que a gente pode vir a namorar? - indagou Luiza, com os olhos brilhando, dando a maior bandeira.
- A gente j est namorando, princesa!
Pronto. Era tudo o que ela queria ouvir! A simples ausncia dessa frase era a nica coisa que a estava incomodando. Tinha medo de Gabriel, a qualquer hora, aparecer 
com a desculpa "estou num momento muito meu", a maneira com a qual alguns caras gostam de dispensar a mulherada.
A frase "A gente j est namorando" foi a deixa que faltava para ela se entregar a Gabriel sem medo, sem culpa, sem insegurana. Foram para o apartamento dele. E 
tiveram uma noite linda, repleta de beijos, carinho, cumplicidade, ternura. E muitos abraos. Abraos demorados, apertados, sinceros, amorosos. Mas logo veio  tona 
a realidade.
- Tenho de ir, no posso dormir aqui, minha me me mata.
- Eu te levo, mas antes vamos pedir uma pizza?
A proposta era tentadora, mas Luiza queria ficar sozinha um pouco. Queria ir para casa refletir sobre o que tinha feito.
-        No precisa me levar. Prefiro pegar um txi e ir sozinha.
-        Por qu, amor? Eu fiz alguma coisa de errado? Amor. Ele a chamou de amor!
-        Claro que no! Voc foi timo. Eu  que sou meio chata.
Gabriel parecia no se importar com a ingenuidade e imaturidade (e chatice, verdade seja dita!) da amiga-virtual-que-virou-namorada.
-        Voc no  nem um pouco chata. Eu te entendo, afinal voc mora com seus pais, deve explicaes a eles. E ns s estamos juntos h uma semana,  claro que 
eles no entenderiam se voc dormisse aqui.
Ouvindo isso, Luiza se jogou nos braos do (agora oficialmente) namorado e o encheu de beijos.
Gabriel respeitou sua vontade e ela pegou um txi para casa. Eram quase duas da manh e ela tinha sado antes das sete. Sua me perguntou onde esteve e ela mentiu, 
dizendo que tinha sado com duas amigas da faculdade depois de passar o fim do sbado terminando um trabalho.
Como explicaria  me que estivera no apartamento de um cara que conheceu na Internet? Ainda era cedo, muito cedo para falar do novo namorado para sua famlia. Eles 
certamente achariam o ritmo do namoro acelerado demais. E ela no estava a fim de se estressar, estava muito feliz para isso.
Os dias se passaram e Luiza e o mdico continuaram se vendo freqentemente. Almoavam juntos, jantavam juntos, iam ao cinema e geralmente terminavam a noite no pequeno 
apartamento dele.
Gabriel nunca deixou o romantismo de lado e parecia ser o homem mais perfeito do mundo. Dava flores, bilhetes apaixonados, bichinhos de pelcia... Luiza manteve 
firme a recusa de dormir na casa dele, mesmo depois de contar aos pais sobre seu relacionamento com o mdico.
Ele era compreensivo, no insistia.
-        Sei que em breve ns vamos dormir e acordar juntos todos os dias, amor! E s uma questo de tempo - dizia Gabriel. - Assim que as obras da clnica do meu 
pai estiverem mais adiantadas, eu te levo a Volta Redonda para conhecer minha famlia. Mas do Natal no passa. Voc precisa experimentar a rabanada da minha me, 
Lu!  a melhor rabanada do mundo!
Luiza ria boba, entortava o pescoo, ficava com cara de pateta, estava fascinada, mesmo depois de quase um ano de namoro. Acreditava ter encontrado o homem da sua 
vida, seu prncipe encantado. (Garota tem mania de prncipe.) Desconfiava at que no demoraria muito para que ele a pedisse em casamento.
J comeava a pensar com quem poderia fazer seu vestido de noiva, onde casaria, quem convidaria, que msicas tocaria na festa, coisas de Luiza. Tudo ia s mil maravilhas; 
s o que ela no gostava era daquela vida insuportvel de mdico, plantes no Rio, plantes em Volta Redonda, pacientes que ligavam no meio da noite... Um saco. 
Mas, mesmo assim, era linda demais a histria que os dois estavam construindo.
At que estourou uma bomba.
Luiza passou uma semana enjoando toda manh. Acordava com vontade de vomitar. Vomitava e no conseguia cogitar comer algo no caf da manh. Ficou ansiosa, com um 
certo medo, at, mas seus peitos comearam a ficar inchados e doloridos; pensou que a menstruao viria muito em breve, mas...
- Gabriel. Eu estou grvida.
Sem medo, sem dvidas, segura. J mastigara a idia e no seria exagero dizer que ela trazia uma pontinha de felicidade pronta para explodir dentro do peito.
Imaginou-o abraando-a, beijando sua barriga, pegando-a no colo, marcando a data do casamento, comprando os mveis com ela, pintando o apartamento e decorando o 
quarto do beb... Para Luiza, era o comeo de uma nova vida, fora da casa dos pais. Casada. Me de famlia. Um sonho que tinha se realizado um pouco antes do que 
imaginara, mas ainda um sonho. Ela amava Gabriel, adorava crianas, sempre tivera um certo magnetismo com bebs, no via a hora de se embrenhar num mundo de fraldas, 
arrotos, chupetas e afins.
- Grvida? Como assim, grvida, Luiza? Como isso foi acontecer, meu Deus?
- A camisinha estourou. Acontece nas melhores famlias, vem c - disse Luiza, com um sorriso largo, tentando se aproximar para abra-lo.
- Por que voc no toma plula, Luiza? Olha no que deu! Est de quanto tempo? - perguntou, esquivando-se, nervoso.
- Um ms e pouquinho. Fui pegar o resultado hoje.
- Voc vai ter de tirar - ordenou Gabriel, seco.
- Nem morta! Acho aborto um crime! Jamais faria isso!
- Luiza, no insista. Desculpe, mas voc tem que tirar! -gritou, para depois emendar, suando frio, com a cabea baixa: - Eu sou casado, tenho dois filhos... Pssimo 
momento para eu te contar isso, eu sei, mas...
- Casado? - Luiza estava abobada, perplexa, atordoada, sem ao.
- ! Casado. H sete anos! E no pretendo me separar da minha mulher, Luiza! Ela teve beb h dez meses, no posso fazer nada por voc. A no ser pagar o aborto 
e te dar todo o apoio do mundo. Para isso voc pode contar comigo.

PENLOPE NAO DEMOROU a tomar coragem para a primeira audio, para uma novela americana. Uma personagem latina, traficante de drogas, com uma nica fala, "Help!", 
cujo crebro seria transplantado para o de um oran-gotango logo aps um acidente de avio na floresta amaznica. O teste foi bizarro, ela morreu de vergonha, mas 
foi l e fez. No levou. E levou na esportiva. "Ainda bem!"
O segundo teste foi para um comercial de sopa instantnea. Tudo o que ela tinha de fazer era tomar uma colherada, olhar para a cmera e dizer, sorriso cravado no 
rosto: "Hummm... Isso  que  sopa!" No conseguiu, teve nsia de vmito por conta do cheiro forte de cebola, que ela odiava, e foi expulsa do ser antes da quarta 
repetio.
O terceiro teste foi para ser amiga nmero 3 da melhor amiga da personagem principal de um filme. Era um suspen-se que Lisa classificou como "bem legal", um longa 
que iria reerguer, de uma vez por todas, a carreira de Henry Thomas, o menininho do E.T. Sem contar que era dirigido, oh, meu Deus!, pelo assistente do assistente 
do diretor assistente dos clipes da Jennifer Lopez.
-        Uau! Eu digo Uau, Penlope! Uau! - vibrava Lisa, com seu vocabulrio pouco extenso e seu sotaque tipicamente nova-iorquino, apressado, agitado, nasal. - 
Essa pode ser a sua chance de ser vista! A sua chance de virar Marilyn - exagerava.
-        Menos, Lisa, menos... - brincava Penlope.
Lisa era uma figura, cabelos sempre desgrenhados, mas no de um jeito Gisele; de um jeito despenteado, largado, com cara de sujo, mal-ajambrado. Tentava domar a
juba botando tudo para cima, num rabo do lado direito, bem no alto da cabea. Vivia de jeans e camisa branca larga de boto, tinha quase dois metros de altura e 
uma escoliose que a fazia pender visivelmente para a direita, era para l de divertida e torcia sinceramente por Penlope. Mas a brasileira era apenas mais uma das 
clientes de Lisa, atrizes que tentavam a sorte em Nova York.
O quarto teste foi para ser danarina rebolativa de talk-show engraadinho, o quinto para tentar a vaga de Monga (mulher que se transforma em gorila) num parque 
de diverses em Nova Jersey, o sexto para um comercial de meias com tecido exclusivo que no deixava o p suar, o stimo para ajudante de hipnotizador underground, 
o oitavo para encenar, numa feira agropecuria, a aplicao de um produto para fgado de boi e o nono para um anncio de inseticida, no qual precisou vestir-se e 
atuar como... mosquito. Uma emoo inenarrvel.
No passou em nenhum. No, nem para o papel de Monga, a Mulher Gorila. Disseram que ela exagerou na interpretao. Pode?
Pouco depois da mar de audies bisonhas, ela foi fazer um teste para tripulante de um foguete espacial que seria destrudo por um meteoro gigante no novo filme 
de Ben Affleck, por quem Penlope era simplesmente apaixonada. Olhou para ele fixamente na produtora onde aconteceu a audio. Ele gostou de ser olhado, riu, ela 
riu de volta, mas ficou por isso mesmo. "Oba! Quando voltar para o Brasil vou poder contar para todo o mundo que o Ben Affleck me deu mole!", comemorava, rindo da 
prpria brincadeira.
A mar de azar era s no quesito carreira. No quesito corao, Penlope j tinha dado umas bitocas em Montakha, seu colega jamaicano de teatro, e em Jeff, gringo 
boa gente que trabalhava na loja de artigos naturais da esquina da rua onde morava. No restaurante, sua eficincia e simpatia lhe garantiam gorjetas cada vez maiores 
e na Markle fazia novos amigos diariamente e aproveitava para lapidar seu ingls.
Alis, se havia uma vitria naquela viagem, era seu ingls, que estava bom, muito bom mesmo. Para melhor-lo ainda mais, com a grana das gorjetas, Penlope matriculou-se 
num curso para trabalhar o sotaque, para aprender a maneira correta de pronunciar as palavras.
As aulas tinham acabado de comear quando surgiu o primeiro teste interessante, para uma comdia de situao, ou sitcom, como preferem no Brasil. Era para viver 
a namorada latina e sensual do mocinho mulherengo da histria.
Botou na sua enorme bolsa de lona a tiracolo figa, olho turco, fitinhas do Senhor do Bonfim, santinhos de So Judas Tadeu, uma garrafinha com sal grosso, tudo para 
que a sorte no a abandonasse, tudo para conseguir abocanhar finalmente um papel. J estava ficando chato fazer vrios testes por semana e no passar em nenhum.
Ela no queria voltar para o Brasil sem a experincia de trabalhar como atriz nos Estados Unidos.
Fez o teste e achou sinceramente que tinha a tal da qumica com o ator, um mauricinho metido a estrela que Penlope achou arrogante demais para seu gosto. Ela e 
mais seis meninas tentavam o papel.
O diretor pediu a trs atrizes para darem um passo  frente, e ela estava nesse meio. Seu corao pulou para a boca. Mas a frase que ouviu em seguida do homem de 
cara antiptica foi: "Vocs esto dispensadas."
E assim, com aquele bom e velho "No foi dessa vez, obrigado, se aparecer alguma outra coisa a gente entra em contato" ao qual muitos atores esto acostumados, seguiu-se 
a vida de Penlope. Sua carreira de atriz no emplacava mesmo. Teste atrs de teste, para musical off-Broadway, para filmes baratos... No levou nenhum.
Por um bom tempo, culpou seus peitos. Achava-os pequenos demais para os padres americanos. Depois implicou com seu sotaque, com sua voz (achava que ela no era 
enjoada o bastante), com seus olhos castanhos (por que no eram azuis?)...
Nada que a fizesse desistir. Ainda mais agora, que seu ingls j dava para xingar, discutir, reivindicar, desviar de cantadas e at bater boca com diretores, garons 
e vendedores mal-educados. Penlope estava se sentindo a prpria nova-iorquina. J conseguia ficar sem ligar para o Brasil por mais de duas, trs semanas! No comeo, 
ligava dia sim, dia tambm.
Foram, pelo menos, uns 68 testes seguidos por respostas negativas. Aquele bando de fiascos acabou por baixar sua auto-estima, e ela passou a duvidar do seu talento, 
da sua vocao.
Nada acontecia, at que um dia sua sorte pareceu ter mudado.
Numa seleo, com mais de setenta meninas, algumas lindas e com milhes de testes e comerciais na bagagem, ela conseguiu fisgar um lugar entre as cinco finalistas.
At ento, os testes foram simples. Era s olhar para a camera e dizer um texto que queria passar a idia de dramtico. Suas lgrimas sinceras conquistaram e lhe 
renderam elogios de produtores e at do prprio diretor, o que aumentou suas esperanas. Numa bela manh de outono, ela se deu conta de que eliminara mais de 60 
candidatas. Era sua primeira grande chance.
No dia do ltimo teste, estava to estimulada e otimista que foi at o salo de beleza fazer uma escova s para o seu cabelo ficar com mais vida. Era preciso estar, 
alm de tima, linda. Ela confiava no seu talento, apesar de balanar a respeito dele quando as coisas no iam bem, mas morria de medo das outras atrizes. Elas eram 
americanas, afinal de contas!
Brasileira com muito orgulho e com muito amor, Penlope estava extremamente feliz por ter chegado at ali. E agora, to perto do resultado, sentiu um frio enorme 
na barriga, no pde deixar de se imaginar ligando para o Brasil para contar as novidades. E que novidades! Alm disso, estava curiosa para saber como seria o teste 
derradeiro.
Chegou ao estdio, recebeu um papel com um texto e foi chamada, junto com as outras candidatas, a ir para uma sala. A mulher que as levou at l tinha um nariz arrogante 
e era a cara da Cher (verdade, as cirurgias plsticas devem ter sido feitas pelo mesmo mdico). Falou com voz pausada que elas teriam uma hora para decorar suas 
falas e que quando o tempo expirasse iria busc-las. Dito e feito.
Em uma hora ela voltou e, em vez de chamar todas juntas, chamou apenas uma e sumiu com ela pelo corredor. Foi assim at chegar a vez de Penlope, que estava em pnico, 
sem saber para onde as outras tinham ido e por que no voltaram para contar como foi.
Seguiu a Cher de Chinatown at a sala de um jovem cujos cabelos comeavam a ficar grisalhos, mas que no devia ter mais de 35 anos. Simptico, pediu-lhe que dissesse 
o texto olhando para ele.
Logo em seguida perguntou:
- Voc consegue diz-lo com sotaque do sul?
- Sotaque do sul? - apavorou-se Penlope. "Ai, meu Deus,  o povo do Sul que fala com o nariz tapado? Ou esse  o pessoal do Norte?", sofria em silncio.
- . Por que o espanto? Voc mora h quanto tempo aqui em Nova York?
- H uns dez meses.
-Ah... Em to pouco tempo  difcil mesmo distinguir os sotaques. Voc no tem noo de como  o sotaque do sul ou tem uma vaga idia?
- Vou ser supersincera: eu no sei como . Mesmo. Mas garanto que posso aprender, em dois tempos! Acabei de me matricular numa aula para trabalhar o sotaque, tenho 
certeza de que a minha professora pode me ajudar!
- Claro que pode - ele disse, simptico. - Agora a Susan, a moa que te trouxe aqui, vai te acompanhar at a sala onde esto as outras meninas.  que a gente decidiu 
dar o resultado ainda hoje. Estamos com pressa. Tchau e obrigado.
Surpresa - resultados costumavam ser divulgados no mnimo trs dias depois, e por telefone - e no to otimista quanto antes, Penlope esperou. Esperou uma eternidade. 
At que Susan, a Cher falsificada, entrou na sala.
- Mnica e Jssica, venham comigo. As demais esto dispensadas. A gente est com o telefone de vocs. Qualquer outra oportunidade, a gente chama.
- Pera! Eu nem tive chance de falar com sotaque do sul! Eu tenho certeza de que posso aprender! Falei para ele!
-        Eu no posso fazer nada por voc, baby, nem adianta reclamar comigo. Eu sou uma mera assistente, baby. Mas seu telefone est aqui, pode deixar que a gente 
liga se...
- Liga nada! Vocs nunca ligam! No agento mais ouvir esse papo! - estourou Penlope enquanto Susan desaparecia pelos corredores com as escolhidas.
A aspirante a atriz chorou como nunca. Foi embora cabisbaixa, as pessoas em volta olhando com pena. Mas ela no queria pena. Queria o papel! Queria uma chance, uma 
s, caramba! Tinha imaginado tanta coisa... Arrumou-se to bonita, preparou-se com tanto afinco... "Para nada", concluiu.
Desceu no elevador sentindo um misto de raiva, decepo e insegurana. Achou que se no conseguira aquele papel jamais conseguiria outro. Saiu arrasada do prdio 
da NBC, no Rockefeller Plaza, certa de que optar pela carreira de atriz fora uma grande burrada.
"Eu sempre acreditei tanto em mim, fiz tanto pensamento positivo... mas de que adianta? J vi um monte de meninas pessimistas at a raiz do cabelo passarem em testes. 
Por que s no acontece comigo? Por que s eu no consigo?", lamentava em silncio.
Nova York de repente lhe pareceu cruel. A cidade havia sufocado seus sonhos de menina. Mas Penlope adorava estar ali, deliciava-se comendo cachorro-quente nas barraquinhas, 
encontrando liquidaes inacreditveis, vendo a vida passar na Washington Square...
Ela teve de se perguntar: "Ser que tantos 'nos' so a prova de que eu devo seguir outro rumo?" Chegou a cogitar fazer outros cursos por l, terminar a faculdade 
de jornalismo, quem sabe... Isso! Ela daria um pulo antes do jantar nas universidades prximas  Markle para apurar. Vai ver seu futuro estava numa emissora de tev, 
" frente de um telejornal", sonhou alto.
Sua auto-estima, porm, continuava l embaixo. Descendo as escadas da estao de metr, prometeu a si mesma: nada mais de testes. S no Brasil, se um dia ela voltasse, 
e olhe l.
No metr lotado, vrias pessoas se espremiam, pedintes faziam discurso para angariar dinheiro, alguns passageiros liam sem sequer notar o sacolejar do vago, outros 
olhavam no relgio, outros liam os anncios. "Todas essas pessoas tm emprego, colegas de trabalho e salrio fixo no fim do ms...", pensou Penlope, num acesso 
de pessimismo subterrneo. "Por que eu no sou uma dessas pessoas com sorte na vida? Por qu? Por que eu no consigo fazer nem uma ponta? Nem uma figurao, poxa! 
Por qu?", ruminava, em silncio.
Com os olhos vermelhos de tanto chorar, procurou na sua enorme bolsa por um leno descartvel para assoar o nariz. Enquanto catava, o trem estacou e ela perdeu o 
equilbrio. Caiu no colo de um musculoso tatuado, com um pier-cing no queixo.
Ficou azul de vergonha. Levantou-se rpido, pediu desculpas com um sorriso amarelo, ajeitou-se e tentou desviar o olhar do cara. S que ele a olhava de uma forma 
to estranha e insistente que a fez disparar:
-        Que  que voc est olhando, hein? J pedi desculpa,
p!
O homem abriu um sorriso e retrucou:
-        Que bom que voc caiu no meu colo! Que bom!
NA CLINICA CLANDESTINA, muitas meninas com os olhos voltados para o cho fingiam no acompanhar o ritual que se repetia diante de seus narizes. Uma enfermeira chamava, 
um casal (ou uma menina com a me ou com uma amiga) ia at ela, deixava uma quantia em dinheiro, assinava um papel e voltava a se sentar.
Gabriel foi com Luiza, que ficou genuinamente espantada com a infra-estrutura do local. A sala de espera era como a de um consultrio comum. Revistas nas mesas, 
msica ambiente, atendentes oferecendo gua, caf...
Luiza estava arrasada, morta por dentro. Nunca imaginara que passaria por uma situao daquelas. Mas chegara  concluso de que tirar era mesmo a melhor opo. No 
queria ter um beb de um cara casado. Casado! No era certo trazer uma criana ao mundo nessas circunstncias, Gabriel a convencera.
- Luiza Villagio Penna - chamou uma enfermeira.
Ela gelou. Depois de cumprir o ritual do pagamento, Gabriel lhe deu um beijo na testa antes que entrasse.
Foi um constrangimento horrvel. Teve de fazer exame ginecolgico e achou que era ali, naquela salinha e sem nenhum aparelho, que iriam tirar seu nenm.
Comeou a chorar, chorar muito, muito mesmo, pensou em desistir. A enfermeira a acalmou, dizendo que aquilo era s precauo para que nada na "operao" sasse errado.
Mandaram-na para uma sala onde um jazz para l de animadinho no animava nada o ambiente. Duas meninas sentadas afundavam-se nas poltronas num silncio sepulcral. 
Luiza sentou-se calada e assim permaneceu at que se instalou ao seu lado uma menina de cabelos compridos pretos, muito bonita e muito magra.
-  a primeira vez? - perguntou para Luiza.
- Primeira e ltima. E voc?
- E a segunda, infelizmente. Voc est nervosa?
- Bastante.
-        No precisa. Fica tranqila, esta  uma das melhores clnicas do Brasil. Voc est em boas mos.
-        Por que voc no tem o beb? - quis saber Luiza.
- Sem condio! J tenho uma carreira que d muito trabalho. Sou modelo, estou indo para o Japo daqui a duas semanas. No posso jogar essa chance pela janela.  
o comeo do meu p-de-meia para um dia poder criar de forma digna o meu filho. Ainda no  hora.
- Desculpe perguntar, mas como fica sua conscincia depois?
- No pense que eu gosto disso, por favor! Acho que o pior castigo para a mulher que aborta  o prprio aborto, as conseqncias, o trauma, a dor de conscincia, 
como voc falou... S quem passa por isso sabe a barra que .
Luiza aproveitou a deixa para tentar dividir sua angstia.
- Eu estou com tanto medo... Medo da coisa em si, medo do que vai acontecer depois...
- Tudo fica uma porcaria depois, os primeiros dias so os piores. Mas passa. Tudo na vida passa.

- Como voc engravidou?
- Pelo modo convencional, ora!
Luiza tentou esboar um sorriso, mas ficou chocada com a frieza de sua, digamos, colega de sala de espera.
- Brincadeira! S para ver se voc relaxa!
A menina, que devia ter uns 18 anos, estava aparentemente calmssima, apesar de toda a inquietao causada por aquele momento. Fez bem a Luiza conversar com ela. 
S que o assunto morreu, justamente quando ela estava com a cabea cheia de perguntas. Queria saber como era depois e, na hora, se doa, essas coisas. Mas ficou 
com vergonha. Preferiu esperar calada e encontrar as respostas por conta prpria.
Uma funcionria as chamou e as levou para o segundo andar. Foram para outra sala de espera, onde uma enfermeira gorducha com fala mansa e cara de boazinha explicou 
o passo a passo do que aconteceria dali em diante e deu dicas para o que chamava de "ps-operatrio" - a palavra aborto ali era simplesmente ignorada, inexistente.
O que mais a chocava era a clnica ser clandestina e ter uma infra-estrutura daquelas, com tantas enfermeiras, tantos mdicos, salas de estar, mveis de luxo, equipamentos 
de primeira e tudo o mais de uma clnica comum.
No conseguiu evitar, acabou pensando em meninas que, sem dinheiro, recorrem a "aougueiros" para acabar com a gravidez e algumas vezes morrem por causa disso. Outras 
compram remdios para abortar e acabam tendo srias complicaes... Foi inevitvel chegar  concluso de que, apesar de todos os pesares, era uma menina de sorte 
por ter um namorado com a quantia necessria para lhe pagar o aborto num lugar decente. Ilegal, mas decente.
Correu tudo bem, mas, como suspeitava, foram terrveis os dias que sucederam  "operao". Pesadelos com o beb, a desconfiana da me, que percebera o clima pesado 
dentro de casa. E, pior de tudo, a preocupao com sua vida dali para a frente. Gabriel tinha dois filhos, era casado h anos, em que roubada fora se meter! Nunca 
tinha sequer se imaginado numa situao dessas. No desejava aquilo para sua maior inimiga.
Quando soube que Gabriel era casado, Luiza no conseguiu cobrar-lhe nada. No conseguiu brigar, no conseguiu espernear como deveria, no conseguiu sequer chorar. 
No teve foras. Afinal, esperava um filho e ouviu de um Gabriel superfrio que a soluo era nada menos que tirar esse filho! E aborto era uma das piores coisas 
que podiam acontecer na vida de uma mulher, na sua opinio.
No dava mais para adiar, precisava tomar uma deciso a respeito de Gabriel. E foi pssimo fazer isso. Ela o amava como nunca havia amado ningum. Ele era casado 
e ser amante sempre fora uma das coisas que ela mais condenou. Trair algum, mesmo sem conhecer esse algum, nunca esteve nos seus planos. Achava baixo, imperdovel, 
nojento. Mas ele sempre foi to carinhoso e amigo! Sempre a ajudou tanto, deu conselhos to certos! No fosse ele casado, seria o homem que pedira a Deus. Que dvida, 
quantas interrogaes!
Aos poucos, ela juntou as peas do quebra-cabea montado pelo namorado. Entendeu que o jeitoso apartamento de Ipanema era na verdade um ponto de apoio dele no Rio 
e que as idas a Volta Redonda nunca existiram. Na verdade, Volta Redonda era Petrpolis, cidade serrana onde nascera, crescera e conhecera Anglica, sua mulher, 
a me de seus filhos.
O Natal e o rveillon que Gabriel prometera passar em famlia ao seu lado foram por gua abaixo. Alis, nunca iriam acontecer. Assim como a tal clnica do pai, que 
nem mdico era, nem tampouco tinha essa dinheirama para investir num empreendimento do porte que Gabriel inventara. Tudo mentira.
Mas ela o amava tanto, tanto!
Mesmo com tanto amor, Luiza achava que jamais conviveria bem com aquela ladainha de cara casado. E Gabriel j tinha o discurso todo pronto: era "o casamento est 
acabado" para c, "s no saio de casa por causa dos meus filhos" para l, e assim por diante. Toda aquela velha e manjada lengalenga masculina.
Ela acabou entrando em depresso nesse processo de largar ou no largar Gabriel. Tentou dar-lhe um gelo de uma semana. No quis v-lo nem pintado de ouro no perodo 
ps-aborto. Foram sete dias sem o mdico (a profisso foi uma das poucas verdades que ele contara) e, nesse tempo, achou sinceramente que ia morrer.
Morreu de saudade do seu cafun, do seu cheiro, da sua voz, do seu carinho, da sua presena, do som da sua respirao. Estava num estgio de paixo daqueles, ela 
sequer imaginava que um dia poderia amar tanto, achava que isso era coisa de filme, de msica do Chico. No dava para voltar atrs, muito menos para negar seus sentimentos 
por ele.
Deixou a deciso por conta do corao e no deu outra: amava demais o namorado para deix-lo. Lutar contra seus sentimentos foi opo descartada, eles eram muito 
mais fortes do que ela. A estudante de psicologia chegou  concluso de que se terminasse com Gabriel, sua vida se transformaria num inferno maior ainda.
Por isso, perdoou as mentiras, fingiu que acreditou que o casamento dele estava acabado e lhe disse, com todas as letras:
- Claro que entendo voc no sair de casa. Seria um absurdo voc largar sua mulher com um beb e uma criana pequena agora.
Em suma, Luiza estava cega. E assim, do dia para a noite, passou a ser, definitivamente, "a outra". No dia da deciso, 6 de novembro, ela anotou na agenda, antes 
de dormir: "Moral dessa histria doida, que eu nunca achei que aconteceria comigo: nunca diga 'dessa gua no beberei'."
No foi preciso muito tempo para ela se conformar em ser "a outra" e, apesar de no ter sonhado com aquela situao, estava bem feliz por ter Gabriel por perto, 
mesmo que no fosse em tempo integral.
No papel de amante, Luiza aprendeu a respeitar os horrios do mdico, a cobrar ateno sem ser pegajosa e at a lhe dar conselhos sobre a educao dos filhos, v 
se pode!
Verdade seja dita, depois que ela tirou o beb que esperava, Gabriel ficou ainda mais carinhoso, o que a deixou mais derretida e,  claro, iludida com a esperana 
de que um dia ele cumprisse as promessas e deixasse a mulher para ficar com ela para sempre.
Ficou uns seis meses dividindo o tempo de Gabriel com sua rival Anglica sem maiores problemas. Claro, o mdico sabia lev-la na lbia, dizia que ela era a dona 
de seu corao, sua preferida, sua amada. E Luiza, coitadinha, resolveu acreditar. E, pior, comeava a gabar-se por ser a dona da situao. Sua cabea funcionava 
mais ou menos assim: ela sabia da esposa, no o contrrio. Ela era cmplice; Anglica, a trada.
Mais dia menos dia Luiza teria de pensar em Penlope. Aconteceu num sbado chuvoso, quando teve todo o tempo do mundo para botar as idias no lugar. Criticara tanto 
a amiga por ela ter ficado com Vicente, e agora era... uma concubina! De carteira assinada e tudo. Que ironia do destino!
Com esse relacionamento conturbado, Luiza viu que no adianta fazer tantos planos e nem tentar premeditar o futuro. Mas ainda havia uma esperana e era ela que a 
mantinha prxima a Gabriel. Mesmo se achando uma pessoa canalha, sem escrpulos e sem carter, ela acreditava que um dia (que no tardaria a chegar, ela rezava) 
o apresentaria orgulhosa para os amigos e a famlia, como seu marido.
O tempo foi passando, passando, a pacincia de Luiza minguando, minguando. Um ano como "a outra", e as coisas mudaram bastante. Dividir Gabriel comeou a deix-la 
verdadeiramente angustiada, depressiva, sem rumo, atormentada, pssima mesmo. Nada a fazia esquecer que por causa dele tirara um filho da barriga, por causa dele 
passara por cima de todos os seus princpios morais e por causa dele ficava a maioria dos finais de semana sozinha, dentro de casa.
A verdade era nua, crua e cruel: na flor da idade, do alto dos seus 20 anos, ela era namorada de um cara casado, uma realidade que pesou feio sobre suas costas. 
Uma realidade vulgar, sem perspectiva, descabida, que alguns anos atrs no combinaria nada com ela.
Andava chorosa, sem nimo para nada. Gabriel, para piorar a situao, comeou a ficar distante, frio, mais ocupado. Uma Luiza amargurada comeou a nascer. Derrotista, 
destrutiva, infeliz.
Tudo o que queria era se abrir, mas no tinha amigas, e sua me - que apesar de se aventurar em aulas de patina e dana de salo continuava a viver num universo 
paralelo -nem desconfiava do que estava acontecendo e, por isso, jamais poderia ajud-la. Se pudesse, porm, criticaria cada passo da filha at ali. "E com razo", 
acreditava. "At bem pouco tempo atrs eu seria a primeira a criticar qualquer pessoa que fizesse as loucuras que eu estou fazendo por um amor insano desses, um 
amor sem verdade, sem transparncia. Sem futuro."
Enquanto Luiza tentava mas no conseguia tirar pensamentos negativos da cabea, Gabriel seguia feliz, despreocupado, nadando e correndo na praia quase todo dia, 
conscincia em paz, sorriso tranqilo. E estava timo daquele jeito: tinha duas mulheres, filhos, emprego. O que mais o mdico mentiroso poderia querer?
Outra mulher.
, Gabriel era infiel por natureza.
O primeiro sinal de que ele tinha outra amante foram as ligaes para o celular, que o mdico sempre respondia constrangido. Sem contar que o carinho com Luiza diminura, 
os atrasos se tornaram mais freqentes, o tempo era cada vez mais escasso quando estavam juntos...
Durante algumas semanas Luiza no percebeu, ou preferiu no perceber o bvio, mas um dia ele pediu, do quarto:
-        Traz para mim um copo d'gua, por favor, Lucinha!
Na pequena cozinha, ao ouvir o pedido, Luiza ficou esttica com a jarra de gua na mo.
-        Lucinha? - repetiu, entre os dentes. Gabriel veio l de dentro correndo, sem graa.
-        Lucinha? Eu te chamei de Lucinha? No acredito, meu amor! Lucinha... quero dizer, dona Lucinha  uma paciente chata que me liga o tempo todo, j estou at 
falando o nome dela!
T bom!
Luiza entendeu na hora. No tinha como fugir da verdade. Havia uma terceira personagem, era evidente. E ela se chamava Lucinha, e chegava para desestruturar ainda 
mais o tringulo em que se metera. Quis fazer um escndalo, jogar a jarra de gua no cho, voar para cima dele aos prantos... mas sabia que de cabea quente no 
se pode tomar nenhuma atitude. Abafou a vontade de escandalizar e aceitou o abrao do mdico, tentando no parecer encucada com a novidade.
Mais tarde, indo para casa, pensou: "Que cara-de-pau! Ele est me enganando. De novo! Mas desta vez no vai ser fcil, no, doutor." A estudante de psicologia botou 
uma idia fixa na cabea: descobrir quem era a tal Lucinha. Chegou  concluso de que se dissesse qualquer coisa agora ou se o colocasse contra a parede, Gabriel 
apenas negaria. Mas se ela descobrisse o caso ele simplesmente no poderia negar. E a, sim, ela queria ver como o malandro reagiria.
No poupou esforos para conhecer a nova "vtima" de Gabriel. Ficou obcecada com a idia de saber quem era, o que fazia, onde morava, quantos anos tinha sua nova 
arquiinimiga. Uma noite, depois de deixar o apartamento do amante, por volta das oito, em vez de ir para casa, ficou escondida no carro, esperando-o sair. Ela tinha 
certeza absoluta de que ou ele sairia ou uma mulher apareceria por l muito em breve. Foi um daqueles dias em que o mdico estava com muita pressa.
Sua intuio estava certa. Em menos de dez minutos, a campainha da garagem anunciou a sada da caminhonete preta de Gabriel. Agachada perto do volante, para no 
ser vista, e tomada de raiva e cime, Luiza virou a chave e seguiu o namorado, que acelerou rumo ao Recreio dos Bandeirantes, bairro que fica a uns quarenta minutos 
de Ipanema.
O destino do mdico loroteiro? Uma luxuosa casa na avenida Sernambetiba, de frente para a praia. Gabriel parou o carro do lado de fora, tocou a campainha, o porto 
abriu e ele entrou. Ficou horas l dentro. E ela, horas estacionada do outro lado da rua, esperando, perto de umas rvores. O tempo passava e nada de Gabriel aparecer.
Luiza sentiu medo por estar num ambiente deserto e com pouca iluminao s dez e meia da noite; pensou s em coisas ruins, podia ser roubada, pior, seqestrada. 
Naquele lugar bandidos poderiam fazer o que quisessem: levar seu carro, sua bolsa, machuc-la. Mas, apesar de toda a inquietao por conta do risco que corria ali, 
ela no arredou p. O corao batia forte, alto, batido, mesmo, parecia que uma rave animada acontecia naquele momento em seu peito. Ela estava quente por dentro, 
como se um vulco estivesse prestes a explodir na sua barriga.
Sabia que o morador daquela casa no era paciente de Gabriel. Por isso continuava ali. Queria confirmar suas desconfianas.
E conseguiu.
Viu a hora em que ele saiu, por volta de uma e meia da manh, aos beijos com uma mulher mais velha, que devia ter uns cinqenta e poucos anos. Ela era loura, tinha 
os cabelos desalinhados na altura dos ombros, usava uma camisola longa, transparente, pouco escondida por trs de um robe. Os dois pareciam no querer se desgrudar, 
no paravam de se beijar, nem olhavam para os lados.
Dentro do carro, Luiza observava a cena sem piscar e sem conseguir conter a enxurrada de lgrimas que transbordavam dos seus olhos. Era tanto sentimento ruim junto... 
cime, dio, rancor, repugnncia, desgosto, tristeza, nojo, mgoa...
Sentiu-se a pior das mulheres, sentiu-se um nada.
Gabriel bem que tentava ir embora, mas a loura cinqentona tanto seduziu que o mdico cedeu e acabou entrando novamente. S que desta vez ela abriu o porto, ele 
pegou o carro, que estava estacionado na rua, e o ps na garagem. Ia passar a noite com a tal mulher.
Acuada no carro, com todos os sentimentos  flor da pele, Luiza encasquetou com um pensamento fixo: queria se vingar do desgraado que transformara sua vida num 
inferno.
Respirou, enxugou as lgrimas e se recomps antes de voltar para Ipanema. Foi para casa atnita, sentindo-se ridcula, enganada, trada. No caminho, comeou a se 
fazer mil perguntas que jamais teriam respostas. H quanto tempo Gabriel tinha a outra mulher? Ser que era caso antigo? Conhecera na Internet tambm? Ser que ela 
era uma entre vrias que o palhao tinha? Ser que todas as palavras de amor ditas a ela serviam tambm para a mulher do Recreio? E para a esposa, o que ele costumava 
dizer? Que outras mentiras ele lhe contara?
Naquela noite, comeou a arquitetar a melhor forma de faz-lo sofrer. A partir daquele momento, s conseguia pensar em como destruir o amante, sua reputao, sua 
felicidade, sua famlia. Era uma meta, para a qual no pouparia esforos. Chegou em casa, conectou-se e leu o e-mail de um amigo virtual que sempre encerrava suas 
mensagens com dicas. A daquele dia foi, inacreditavelmente, a seguinte:
Vingana  um prato que se come frio.
Pronto. Foi a deixa para que ela armasse o plano friamente, nos mnimos detalhes. Nunca estivera to decidida: queria acabar com o casamento de Gabriel. Seria essa 
a sua vingana. Ele no ficaria com ela, mas no seria feliz com mais ningum.
O prximo passo era descobrir o rosto e os hbitos de Anglica. Queria contar tudo para a rival, tintim por tintim. Com um requinte de crueldade,  bem verdade. 
Alm de falar de seu caso com Gabriel e da mulher do Recreio, diria como ele se referia a ela. Comeou a preparar sua vingana e saboreou cada momento.
Primeiramente, diria a Anglica que o mdico s falava das crianas com raiva, desprezo, impacincia. Mentira, claro.
Ele amava profundamente os pequenos, disso Luiza tinha certeza. Mas ela estava cega de dio, queria inventar muito mais para a mulher de Gabriel. Inventaria, por 
exemplo, que ele s no se separava dela porque no queria dividir o patrimnio. Que ele reclamava do choro insistente do menor, que vivia com problemas de sade 
e nunca o deixava dormir direito, e o quo decepcionante, ele dizia, era ter filhos com algum que no se ama. Ainda mais quando esse algum descuida do corpo e 
no faz nada para recuperar a forma depois de duas gestaes.
Chegava a sorrir ao imaginar cada frase, seus olhos faiscavam. As nicas pessoas de que Gabriel realmente gostava na vida eram os filhos, Alan, o menor, e Mariana, 
de quatro anos. Ele ficaria absolutamente transtornado se Anglica sumisse com as crianas ou mesmo o impedisse de v-las. E era exatamente isso que Luiza pretendia. 
Deix-lo longe dos filhos. Nenhuma dor seria maior que essa para ele.
Um dia, enquanto Gabriel estava no banho, ela foi at sua pasta ver se achava o endereo de sua casa. Vasculhou cada compartimento, cada papel solto, cada envelope 
em busca de uma conta para pagar, uma correspondncia, uma nota fiscal... At que... fuando um pequeno compartimento da pasta encontrou uma conta de luz. Urrou 
por dentro de felicidade e anotou rapidamente o endereo. Agora ela sabia o nmero da casa e o nome da rua onde Gabriel morava com a famlia, em Petrpolis.
S faltava ter a prova do crime. No queria apenas se aproximar de Anglica para dizer que era amante de Gabriel -isso era muito pouco. Queria mostrar as fotos que 
tiraram juntos, felizes, na praia, no ap de Ipanema... As fotos... ela s tinha umas quatro fotografias deles dois juntos. E pensar que ele relutara tanto para 
posar ao lado de Luiza... dizia no se achar fotognico... Pois sim! A estudante de psicologia agora ansiava por provar que alm dela existia outra e, quem sabe, 
muitas outras.
Lanou mo de sua mquina fotogrfica digital, presente do pai, esquecida no armrio desde que abandonara o curso de fotografia. Achou-se a prpria James Bond de 
saias ao se ver limpando a lente e ajustando a camera para flagrar o casal de pombinhos.
Durante noites a fio, seguiu Gabriel ao seu ninho de amor com a segunda rival em busca do clique perfeito. Desejou veementemente que a cena do amasso na frente da 
casa, com a mulher de camisola, se repetisse. No aconteceu. Foram noites e noites sozinha dentro do carro, naquele lugar ermo e escuro,  espera de um novo arroubo 
de paixo ao ar livre. E nada.
At que, numa noite, Gabriel no entrou na casa, apenas buzinou. A mulher saiu, toda emperiquitada, cheia de pulseiras, e entrou no carro.
Luiza arregalou os olhos surpresa, curiosa. Foi atrs dos dois, que pararam num barzinho com msica ao vivo a poucos quilmetros dali. Sentaram romnticos numa mesa 
na varanda, deram as mos, no tiraram os olhos um do outro, beijaram-se vrias vezes. E Luiza, mesmo morrendo de medo de ser vista, fotografava escondida atrs 
de um carro, com o zoom no mximo.
Fotos feitas, ela resolveu ficar para ver o que os dois fariam. Um motel foi o destino do casal e Luiza, mesmo sem jeito com a mquina, j que estava ao volante, 
conseguiu fotografar o carro do namorado na entrada.
Agora, sim, estava feliz. A maioria das fotos tinha ficado tima, bastava imprimi-las, coloc-las num envelope e apare
cer de surpresa na casa de Gabriel num fim de semana para contar a Anglica quem era realmente o pai de seus filhos.
 Mas no era s isso. O plano era fazer uma cena na frente de Gabriel. Ela queria ver sua reao, sua cara de bobo, podia apostar com qualquer um que ele tremeria 
de pnico. "Vai ser lindo!", ela comemorava por antecipao, os olhos cheios de dio.

Subiu a serra ensaiando suas falas, sonhando momento de ver Anglica cara a cara. Os dois mora Roberto Silveira, no foi to difcil achar - era a rua conhecido 
clube de Petrpolis.
Chegou ao endereo. Respirou fundo, sentiu um imenso, mas logo se lembrou do que Gabriel fizera com sua vida, do aborto, da traio com a mulher do Recreio, da de 
perspectiva que aquela relao lhe proporcionava, lotas na faculdade cada vez piores porque s conseguia p" ir na vingana... Tomou coragem e desceu do carro.
Tocou a campainha. Uma mulher atendeu o interfone a chegada a hora.
- Eu queria falar com a Anglica, ela est? - disse, firme.
- No, quem quer falar com ela,  dona Charlote?
"Com essa Luiza no contava. Sua arquiinimiga no estava asa, que notcia pssima! Tinha de pensar rpido. Dona Charlote, quem poderia ser dona Charlote? De qualquer 
era uma amiga de Anglica. Pensou, hesitou por um momento, mas acabou respondendo: 
-Sim, sou eu!
-Ah dona Charlote, a dona Anglica disse que no ia esperar a senhora mais no. A Marianinha estava muito inquieta. Mandou dizer que encontra a senhora l no tal 
do Baixo Beb, na festa do Lucas.
Luiza quase no acreditou. Anglica estava na praia Leblon, a poucos minutos de sua casa! Correu para o carro pisou fundo. Queria chegar logo, estava ansiosa para 
ver como era Gabriel em famlia e como seria sua reao ao v- la  aparecer na festa de um coleguinha de sua filha.
A idia de fazer escndalo na frente de muita gente a deixava agitada. Desceu a serra a mais de cem por hora, com c rdio a todo volume. Cantando alto, parecia uma 
louca, de to obstinada. Passava raspando por carros e caminhes, ria um riso nervoso, temeroso. Ela estava prestes a acabar de vez com a vida de casado de Gabriel. 
Acreditava que assim lavaria sua honra, sua alma, suas mgoas.

A estrada estava tranqila e logo ela chegou ao Leblon. Estacionou o carro perto do Baixo Beb, um quiosque simpaticssimo onde um bando de pequerruchos passa boa 
parte da manh ou da tarde brincando e bebendo gua-de-coco, e ficou parada l por alguns instantes. Olhou-se no espelho retrovisor e no gostou do que viu. Achou 
que estava plida e irou da bolsa um batom. Fazia questo de estar linda.
Abriu a porta e comeou a andar em direo ao quiosque. Logo avistou Mariana, uma criana fofa, pela qual Gabriel era completamente fascinado. Toda vez que falava 
nela mostrava sua foto, corujrrimo. Ela era realmente maravilhosa. Mais ainda pessoalmente. Cabelos cacheados, os olhos grandes e a bochecha fenomenal. Era ela, 
no havia dvida. No viu Gabriel no primeiro momento, s a menina. Fixou os olhos nela. " s chegar l e perguntar onde esto os pais dela", preparou-se. Antes 
tentou mais uma vez achar o mdico na festa no meio dos adultos, mas ele, definitivamente no estava l. "O escndalo no vai ser completo sem a presena dele", 
ponderou. E cogitou desistir.
Mas a cena estava to incrivelmente perfeita, com as amigas de Anglica e Gabriel presentes... Seria um escndalo muito maior - e melhor - do que imaginara. Seria 
o comentrio da festa e as fotos comprometedoras passariam de mo m mo. Por isso, pensou, pensou e... a ausncia de Gabriel no a fez mudar de idia.
Quando estava ensaiando como se aproximaria de Mariana, lembrou que havia esquecido no carro o envelope com as fotos.
Esperou inquieta o trnsito se acalmar, o sinal fechar. Atravessou a rua correndo, pegou o envelope pardo deixado no banco do carona como se fosse uma jia, agarrou-o 
com fora contra o peito e foi novamente em direo a sua vingana. Chegando perto, diminuiu o passo. Quando estava a poucos metros de Mariana, estacou.
Enquanto observava a menina, veio  tona tudo o que vivera at ali. Lembrou como fora enganada, como sua vida ia de mal a pior, e se assustou ao constatar o tempo 
que perdera com Gabriel, que de anjo tinha s o nome, mais nada.
Suas mos suavam, chegaram a molhar o envelope. As placas vermelhas se anunciavam esquentando seu pescoo um n nasceu e se instalou na garganta, mas ela no podia 
desistir. Gabriel no merecia complacncia. Alm disso, esperara tanto por aquele momento, empenhara-se tanto. Pla- nejou, fotografou, correu risco, empenhou toda 
a sua energia para aquela hora e ela enfim chegara.
Aproximou-se ainda mais do quiosque, a festa estava cheia, animada. Onde ser que estava Anglica? Qual daquelas mulheres era Anglica? Luiza simplesmente no conseguia 
distingui-la no meio da pequena multido de mes.
Deu de ombros. No tinha problema, em breve ela saberia exatamente quem era Anglica. Caminhou decidida a embrenhar-se no meio da festa infantil e comear finalmente 
seu "show".
Antes de botar seu plano em prtica, porm, ouviu uma voz familiar.
-        Luiza?
Ela virou-se e teve a surpresa: era Penlope, atrs de um carrinho com um beb dentro.
Seu corao disparou, seu estmago ardeu. Era aquela que um dia fora sua melhor amiga, com uma criana. Na mesma hora vieram-lhe  mente duas coisas tristes. Lembrou-se 
de tudo o que lhe dissera na lanchonete e do beb que no tivera por culpa de Gabriel.
O choro veio at a boca, mas no podia chorar. Ficou sem ao. Chegou a ruborizar. No sabia se ria ou se fingia que no a reconhecera, se virava as costas e seguia 
no propsito de ir at o quiosque fazer o que fora fazer, se sentava no cho e abria o berreiro. Aquilo no estava nos seus planos. Ver Penlope ali, com um beb, 
na sua frente, e exatamente naquela hora, foi um baque violento. Fazia tempo que tudo acontecera. Dois anos.
Penlope tambm no estava nada bem com aquela situao. Sentia-se to desconfortvel quanto Luiza, mas no demonstrava. No estava nem um pouco  vontade, com sua 
boca seca e o corpo parecendo que ia entrar em ebulio... S que disfarava bem. Agia com uma naturalidade espantosa.
-        Penlope! H quanto tempo...  sua?

Foi tudo o que Luiza conseguiu perguntar, apontando para a menininha que dormia, com a voz falhando e os olhos se enchendo d'gua.
As duas no se aproximaram. Nem mesmo para um cumprimento cordial. Era como se as solas de seus sapatos estivessem coladas ao cho. Limitaram-se apenas a um leve 
sorriso e permaneceram de p, uma de frente para a outra, mantendo uma considervel distncia.
-        , Luiza. Essa aqui  a Vida, de longe a melhor coisa que eu j fiz.
Penlope nesse momento tambm deixou a voz falhar. Apesar da armadura que vestira para esse dilogo, seu nervosismo agora comeava a ficar mais transparente, no 
conseguia parar de morder os lbios - essa era sua atitude caracterstica de quando estava tensa.
-        Vida... - suspirou Luiza.
Penlope estava visivelmente emocionada. Sentiu vontade de perguntar muitas coisas, mas no conseguiu. S conseguia olhar no fundo dos olhos de Luiza, o que valia 
por mil indagaes. Percebeu que algo estava errado, conhecia como poucos aquele olhar.
Ambas sentiram um misto de repulsa, mgoa, medo, carinho, ressentimento. Pararam no tempo. Olharam-se tanto, e com tanta vontade, que parecia que se encaravam h 
horas ali, de p, bem prximas ao Baixo Beb. E como fez bem se olharem! Naquele momento, nem a barulheira das crianas no quiosque atrapalhou a sintonia entre as 
duas. Nem tampouco a brisa que bagunava seus cabelos.
Luiza tambm queria dizer muita coisa, explicar outras. Sua vontade era perguntar por onde Penlope andara, o que fizera depois que ficou com Vicente. "Vicente...", 
pensou, concluindo logo em seguida que nem se lembrava direito dele, essa era a verdade. Estava tudo to longe... To distante...
Definitivamente, o assunto no ia voltar ao passado.
-        Cad o pai?
-        No tem pai.  produo independente. E com muito orgulho!
Com essa frase a fortaleza de Luiza desabou. Os ombros ruram, a expresso alterou-se, o corao doeu, murchou. Penlope tivera peito para topar uma produo independente, 
mesmo com todos os problemas e dificuldades que uma atitude dessas pode gerar.
Ela no. Abortou o filho, a maternidade, o sonho de botar uma criana no mundo. Mais uma vez teve vontade de aplaudir Penlope de p. Invejou sua fora, sua iniciativa. 
Era a Penlope que ela sempre conheceu. S que agora, me de uma gorducha. Uma gorducha que ela tambm poderia ter ao lado caso tivesse ignorado o medo e mandado 
Gabriel s favas quando ele sugeriu o maldito aborto. Sabia que pela ordem natural das coisas um beb deveria fazer parte da sua vida naquele momento. Seria seu 
companheiro e lhe daria orgulho, felicidade, sorrisos.
- Eu sempre invejei sua fora, Penlope. Sempre te invejei, para falar a verdade - desabafou Luiza, meio sem pensar, olhando para baixo.
- No tem nada que invejar! - disse Penlope, surpresa com a declarao. - No foi produo premeditada, no. Fiz a burrice de transar sem camisinha, contei para 
o cara e ele simplesmente sumiu, evaporou. Voc acredita que nos dias de hoje ainda existem caras covardes assim?
Penlope era boa fingidora. Na verdade, tremia que nem vara verde. No era fcil rever a pessoa que num momento de raiva a magoara com palavras to vis. Tambm foi 
difcil ignorar a pea que o destino lhe pregara, promovendo o reencontro, de forma inusitada e numa cidade grande como o Rio, com a pessoa que mudara sua vida por 
completo.
As duas estavam bastante sem jeito e, se no conseguiam se aproximar para um contato fsico, tambm no conseguiam pensar em ir embora. Uma coisa forte as prendia 
ali.
- E voc no ficou com medo de encarar essa barra sozinha?
- Eu no estava sozinha, Luiza. Estava com o Emlio. Ele  tio e pai dessa criana.
Nessa hora a beb acordou, deu uma espreguiada, fez todos aqueles deliciosos barulhinhos de nenm. Penlope se aproximou dela e disse:
-        Acordou, meu amor? Olha, essa  a tia Luiza! Tia Luiza.
Em nenhum momento elas se trataram com sarcasmo ou desprezo. Por mais estranhamento que a situao causasse.

-        Oi, Vida, tudo bem? - disse Luiza, emocionada, mexendo nos cabelos da criana, olhando as covinhas das mozinhas. - Mas voc falou no Emlio, que saudade 
dele... Depois que... Bem, depois daquilo tudo nunca mais o vi.
Novo silncio. Era a primeira vez que a traio era mencionada. Penlope respirou, estalou todos os dedos, nervosa, olhou para os carros passando na Delfim Moreira, 
e olhou para o cu antes de encarar Luiza e dizer:
-        , ele est morando em Nova York comigo h mais de um ano. E no vai sair de l to cedo, acho que encontrou o amor da vida dele, est completamente apaixonado!
-        Nova York?
- Pois , menina! Acabei me dando bem naquela terra fria. Estou aqui de visita, vim apresentar a neta ao av.
- Mas o que vocs esto fazendo l? - sucumbiu Luiza  curiosidade.
quela altura, vencido o constrangimento da aluso  traio, as duas comeavam a relaxar e permitiam-se sorrir de vez em quando - mesmo que um sorriso tmido. E 
continuaram, agora mais calmas, a conversar.
-         uma longa histria. Fui para l estudar teatro. Meus pais descolaram a grana e eu me mandei. No estava nada a fim de ficar no Brasil, no queria ficar 
nem mais um dia por aqui - disse Penlope, virando a cabea para se esquivar do olhar de Luiza.
Luiza, por sua vez, baixou os olhos. S naquele momento percebeu que por sua causa Penlope largara tudo. Faculdade, apartamento, curso de teatro, amigos.
-        Achei que fosse virar atriz famosa nos Estados Unidos, sabe? Mas acho que nunca nenhuma pessoa foi to reprovada em testes como eu! Fui um desastre, um 
desastre completo! Acho que eu sou pssima atriz. Uma atriz coc!
As duas riram como riam antes do episdio Vicente. Riram como cmplices.
- Claro que no, Penlope, voc  tima! Voc brilha quando est em cena - disse Luiza, acreditando sinceramente em cada palavra.
- Puxa, obrigada... - agradeceu feliz o afago no ego.
- Mas se nada deu certo em Nova York o que voc ainda est fazendo l?
- Menina, no dia em que eu achei que seria o pior dia da minha vida, ca no colo de um cara no metr e minha vida mudou completamente.
- No acredito! Por qu?
- Porque o homem era produtor de moda, Luiza! E dos mais badalados. Faz produo para os ensaios fotogrficos da Vogue, Vanity Fair, Rolling Stone e Harper's Bazaar 
e assina o figurino de vrias sries de televiso famosas por l. De repente, ele comeou a berrar no meio do metr: "Que bom que voc caiu no meu colo! Que bom!"
- Que legal, Penlope! - comentou Luiza.
- Primeiro achei que ele era o maior maluco, mas depois no acreditei na minha sorte! O homem pirou naquela minha gargantilha azul que voc sempre pedia emprestada, 
lembra?
- Claro que lembro... - disse Luiza, lembrando-se de mais um monte de outras coisas do tempo em que convivia quase que diariamente com Penlope.
- Pois , ele perguntou onde eu tinha comprado, eu disse que eu mesma fazia, ele falou que h tempos estava  procura de bijuterias diferentes como aquela, pediu 
meu telefone, fui ao escritrio dele com as minhas peas, ele amou e me chamou para trabalhar em sua equipe. Agora minhas bijus esto no pescoo, nos braos, tornozelos 
e na cintura de um bando de descolados de Nova York!
- Caramba! Parabns. Fico feliz de verdade pelo seu sucesso. Voc sempre foi talentosa, criativa... merece ficar famosa. - Luiza abriu a guarda.
- Eu no fiquei famosa, as minhas bijuterias ficaram. No  engraado? Elas aparecem na televiso e nas revistas a toda hora, eu no. Morro de inveja delas!
As duas riram mais uma vez, dessa vez um riso mais solto, que usava toda a extenso da boca.
- E onde  que entra o Emlio nessa histria?

- As bijus comearam a me dar um bom dinheiro. A descobri que estava grvida e chamei o Emlio para morar comigo e para me ajudar na confeco das peas. Graas 
a Deus ele topou. Eram muitas encomendas, eu no podia negar trabalho, precisava da grana, em breve teria mais um estmago para alimentar. Com o Emlio por perto 
a produo nunca diminuiu, mesmo depois da chegada da Vida, que  pequenininha, mas d um trabalho.
- Imagino! Poxa, que amigo o Emlio foi, hein? Ele continua o mesmo?
- O mesmo. Aquela alegria que voc conhece bem, aquele jeito purpurina, feliz da vida 24 horas por dia! Ele levou isso tudo para Nova York, um lugar frio, com pessoas 
geladas. Deu uma virada na minha rotina.
"Nossa! Quanta coisa se passou na vida da Penlope", pensou Luiza. "E ela fala dos fracassos com a maior naturalidade, com alegria, at! Que inveja, meu Deus, me 
perdoa! Mas como  que ela sempre consegue fazer a coisa certa quando a vida impe uma deciso? Como? Por que eu nunca soube fazer isso? Por qu?"
- Caramba, Penlope! E a Vida? Como foi que voc teve tempo com tanto trabalho?
- Tempo para fazer a gente sempre tem, n, Luiza? Isso  o de menos!
As duas riram novamente. Estavam mais soltas apesar do desconforto de estarem em p. Penlope at comeava a gesticular e os silncios no dilogo eram cada vez menores 
e menos freqentes. O que Luiza invejava em Penlope era a naturalidade com que ela encarava a vida e a maturidade e os ps no cho com que passava pelos problemas.
-        E o pai? Quem ?
-         um produtor, amigo de um amigo do Joey, o anjo que me descobriu no metr. A gente comeou a sair, estava bom pra caramba, at que um dia acabei transando 
sem camisinha depois de uma festa.
-        Caramba... Mas vocs estavam namorando srio?
-        Ele no saa da minha casa, estvamos quase morando juntos! J tnhamos at feito o exame, para ver se um de ns tinha AIDS ou alguma doena sexualmente 
transmissvel. Tudo timo. At eu descobrir que estava grvida. O resto voc j sabe. Engravidei, contei e o cara sumiu.
-        Que idiota! Que covarde.
- Tambm acho, mas quer saber? Eu no era apaixonada no. Nem sofri tanto pela ida dele; sofri mais pela falta que um pai faria ao meu beb.
- Vocs namoravam h quanto tempo?
- Uns cinco, seis meses, nem sei ao certo.
- E depois que ele foi embora, em nenhum momento voc pensou em tirar?
- Nunca! Achei que um beb s ia me dar alegria naquele lugar de gente antiptica.
- Guarda muita mgoa dele?
-J passou. Se ele um dia aparecer querendo conhecer a Vida, eu no vou negar. As pessoas erram, Luiza.  humano. O clima pesou. De novo. Longa pausa.
-        E voc, o que est fazendo aqui? - perguntou Penlope, tentando quebrar o gelo que criara sem querer.
Se Luiza seguisse seu impulso teria se atirado sobre Penlope para se esvair de tanto chorar nos seus braos. Por alguns instantes, esquecera o que fazia ali, mas 
logo as vozes das crianas ao lado refrescaram sua memria.
Lembrou-se de todo o dio e o rancor que acumulara ao longo do tempo, do trabalho meticuloso que tivera para acabar com o casamento de Gabriel, de todos os pensamentos 
ruins, das frases cruis que ensaiara para dizer a Anglica, de Mariana brincando com outra criana...
- Nada. Estava s dando uma volta, olhando o mar.
- Estava  olhando as crianas no Baixo Beb, pensa que eu no percebi? Voc no est...
- No, Penlope. No estou nem penso em ficar grvida -cortou Luiza, seca, com uma vontade imensa de desabar em prantos.
No precisaram mais palavras. Penlope percebeu a angstia de Luiza e logo tratou de mudar de assunto.
-        Vem c, voc ainda gosta daquele sorvete de chocolate branco com pitanga, do Mil Frutas?
Em princpio, Luiza olhou desconfiada para a amiga, mas logo chegou  concluso de que o rosto de Penlope trazia estampado o sorriso mais simptico, sincero e convidativo
que algum lhe dera nos ltimos tempos.
- Gosto muito - disse baixinho.
- Ento vamos? Vai ser por minha conta!
Luiza respirou fundo. Olhou o envelope. Olhou para as crianas divertindo-se na festinha. Olhou para Penlope, que no fazia a menor idia do quanto a estava ajudando
naquele momento.
- Deixa eu fazer s uma coisinha antes? - pediu Luiza.
- Claro.
Andou at o quiosque, procurou por Mariana e logo a encontrou. Agora ela estava comendo uma papinha laranja, dada por, no restava dvida, Anglica. Era Anglica,
Anglica!, e ela estava ali, to perto, enchendo de beijos empolgados a bochecha da filha ao fim de cada colherada. Luiza fixou-se na cena por alguns segundos, ouvindo
apenas a batida forte do seu corao.
Olhou em volta e encontrou o que procurava: uma lata de lixo. Foi at l e livrou-se daquele envelope deixando junto com ele um caminho de sofrimento e sentimentos
e lembranas ruins. Depois, dirigiu-se a Penlope. Bem mais leve e com a cabea livre de maus pensamentos.
- Vamos?


- O que tinha naquele envelope?
- Nada de mais. S uns papis sem importncia. Vamos pegar um txi ou vamos a p?
- Ainda preciso perder uns quilinhos que ganhei na gravidez, Luiza, no vem com idia errada, sua sedentria! Vamos andar, porque caminhar nessa cidade linda, alm
de fazer bem para as pernas, faz bem para os olhos!

As duas sorriram. Luiza deu uma olhada na pequena Vida, que dormia como um anjinho novamente, ps-se ao lado da amiga, botou a cabea sobre seu ombro e deixou uma
lgrima cair sem que ela percebesse. Foi o mximo que se permitiu. Penlope, por outro lado, fechou os olhos, sorriu feliz, com o corao a mil, e fez um ligeiro
cafun na cabea de Luiza. Nada mais.
Ainda havia uma barreira, elas tinham plena noo disso. Mas tambm sentiam que em pouco tempo ela desapareceria. E tinham certeza de que, mais cedo ou mais tarde,
um abrao forte e cheio de saudade esmagaria o rancor, as palavras ferinas, a mgoa. ... No fundo, continuavam amigas de verdade, daquelas que nunca se separam,
nem mesmo para ir ao banheiro. Naquele instante, mesmo imersas em desconforto e nervosismo, entenderam o quo forte era aquela amizade. E estavam certas de que,
apesar do passado, ela nunca iria mudar. Nunca.
Andaram sem compromisso pelo calado, abenoadas pelo sol que ainda brilhava forte no cu











Thalita Rebouas  carioca e nasceu em 1974.
Jornalista de formao, acabou optando por abandonar as redaes e se dedicar  literatura. A autora mantm contato dirio com adolescentes de todo o pas atravs
do site www.thatlta.com, permanecendo, assim sempre sintonizada com o que pensam e sonham os jovens brasileiros.
Tudo por um pop star, Tudo por um namorado, Fala srio, me!e Fala srio professor! So os outros sucessos de Thalita publicados pela Rocco.
